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“Todos os escritores sentem-se um bocadinho sozinhos”, diz João Tordo

21 dez, 2023 - 15:31 • Maria João Costa

“O Nome que a Cidade Esqueceu” é o novo romance de João Tordo. O escritor está a celebrar 20 anos de carreira literária. O novo livro tem como cenário a cidade de Nova Iorque e faz o autor regressar a um dos seus temas de eleição, a solidão.

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Uma notícia de jornal esquecida numa gaveta durante vários anos está na origem do novo livro do escritor João Tordo. A celebrar 20 anos de carreira literária, o autor acaba de lançar “O Nome que a Cidade Esqueceu” (ed. Companhia das Letras).

Na génese do livro está um artigo do jornal The New York Times, conta Tordo ao Ensaio Geral da Renascença. “A primeira vez que me cruzei com a história foi em 2015, quando me deparei com um artigo no The New York Times sobre um cidadão anónimo, habitante da cidade de Nova Iorque, que tinha morrido em casa”, conta João Tordo

Intrigado porque é que um jornal de referência estava a escrever sobre um homem que passou “os últimos oito anos da sua vida fechado em casa” e cujo cadáver foi descoberto pelos vizinhos quando “começou a entrar em putrefação”, Tordo apercebeu-se que se tratava de “um artigo não só sobre essa solidão das grandes cidades, mas sobre o que pode acontecer às pessoas mais desamparadas, sobretudo, aquelas que acabam por consumir-se a si próprias numa patologia qualquer”.

Nasceu aí a sua personagem, George, um idoso que vive sozinho em Nova Iorque e que sofre de um distúrbio. É acumulador compulsivo, “alguém que enchia o seu apartamento de coisas inúteis”, conta o escritor que pegou na notícia “cinco a seis anos depois de a ter lido”.

Mas o novo livro de João Tordo tem outra personagem central. Passada na década de 1990, a história cruza no caminho de George a vida de Natasha, uma refugiada da ex-União Soviética que encontra na cidade de Nova Iorque uma nova casa.

“Interessava explorar um tempo e uma cidade que eu só tinha visitado num livro muito antigo chamado ‘Hotel Memória’. Queria perceber a Nova Iorque do pós-Guerra Fria, portanto, o livro passa-se entre 1991 e 1992, logo a seguir ao colapso da ex-União Soviética”, refere o autor.

Segundo João Tordo, “a protagonista vem de um país desse bloco e vê-se obrigada a refugiar-se na América”. O autor explica: “Interessa-me explorar a sensação de estranheza de uma pessoa que tem uma casa, que tem um país ao qual chama casa e que de repente se vê expropriada desse lugar e forçada a mudar-se para outro lado”.

Este sentimento de deslocamento é explorado no livro em que George desafia Natasha para ir a sua casa diariamente. “Curiosamente, o primeiro trabalho que ela arranja, aliás, o único o único emprego que lhe está disponível é em casa do George e é um trabalho misterioso, em que o George lhe pede que ela leia a lista telefónica de Nova Iorque”.

O leitor aos poucos vai percebendo o que guarda este mistério, explica João Tordo que indica que esse mistério “está diretamente relacionado com o título do romance”. George procura um nome, uma espécie de salvação, e Natasha, com a sua curiosidade juvenil, procura um futuro.

Neste “O Nome que A Cidade Esqueceu”, com o qual João Tordo está a celebrar 20 anos de carreira literária, o autor volta a um dos seus temas, a solidão. “É um tema que está sempre presente, embora muitas vezes tente fugir dele”, explica o escritor.

Lembrando que “já se dizia nas fábulas de La Fontaine que uma pessoa encontra o seu destino no caminho que fez para não chegar a ele”, Tordo admite que vai “encontrando sempre esse destino” nos seus livros.

“Acabo sempre por compreender que as minhas personagens estão desamparadas, estão sozinhas e que estão à procura de qualquer coisa. Estão à procura de uma ligação com o mundo que lhes está vedado através de uma espécie de membrana invisível e muitas vezes silenciosa”, refere.

Segundo João Tordo, o tema da solidão “perpassa toda a obra”. Na sua opinião, “esse parece ser um dos temas que está mais presente”. Tordo admite que “talvez porque também reflita” a sua “própria preocupação” e “condição”.

“Eu acho que todos os escritores sentem-se, de certa maneira, um bocadinho sozinhos dentro de si. Isso também é o que os faz escrever. É uma tentativa de estabelecer uma ponte, e mesmo que seja uma ponte com pessoas que muitas vezes não conhecemos, ou não temos resposta do outro lado, essa ponte fica feita”, conclui.

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