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​Vera Lagoa, a história de uma "mulher que não passava despercebida"

29 jul, 2021 - 08:02 • Maria João Costa

“Vera Lagoa – Um Diabo de Saias” é o título da biografia assinada por Maria João da Câmara sobre a antiga jornalista. O livro traça um retrato de vida da antiga diretora do jornal “O Diabo”, uma mulher de fortes convicções e destemida.

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“Há mulheres assim”. É desta forma que começa a biografia sobre Vera Lagoa. Nesta frase está tudo o que foi a antiga jornalista, que morreu há 25 anos. No livro “Vera Lagoa – um Diabo de Saias”, editado pela Oficina do Livro, assinado pela historiadora Maria João da Câmara, está o percurso de vida de Maria Armanda Pires Falcão, a mulher de caráter vincado a quem Francisco Pinto Balsemão e Luís Sttau Monteiro ajudaram a criar o pseudónimo Vera Lagoa.

São 400 páginas, com fotografias pessoais de Vera Lagoa, escritas depois de uma investigação em diversos arquivos e recolha de testemunhos junto de amigos e familiares. Em entrevista ao programa Ensaio Geral da Renascença, a biógrafa explica que o que mais a surpreendeu na vida desta mulher, que tinha amigos como Amália Rodrigues, Natália Correia ou Mário Cesariny, foi o destemor com que sempre escreveu as suas crónicas.

O que diz sobre Vera Lagoa a primeira frase do seu livro “há mulheres assim”?

Era uma mulher que não passava despercebida onde quer que estivesse e em qualquer circunstância da sua vida despertava paixões, mas também ódios.

Já escreveu outras biografias, nomeadamente a de Maria José Nogueira Pinto. Como é que se interessou e se cruzou com a figura de Vera Lagoa?

Lembro-me da Vera Lagoa exatamente porque ela não passava despercebida, principalmente na fase do PREC [Processo Revolucionário em Curso]. E quando estava a fazer uma investigação para outro livro deparei-me com a Vera Lagoa da coluna do “Diário Popular”, as “Bisbilhotices”. Pensei assim: afinal quem era esta mulher? Foi tão falada no pós-25 de abril, está aqui a escrever e eu não fazia ideia, não conhecia o percurso anterior. Tive essa curiosidade e foi isso que me levou a escrever.

"Surpreenderam-me as crónicas anteriores ao 25 de Abril em que ela brinca, ironiza permanentemente com ministros e pessoas do poder"

O nome verdadeiro de Vera Lagoa é Maria Armanda Pires Falcão. No seu livro podemos ler, por exemplo, como surgiu o pseudónimo com que ela assinava nos jornais. Teve dois responsáveis.

Ela foi ter com o Dr. Francisco Pinto Balsemão ao “Diário Popular” para lhe mostrar os primeiros textos que escreveu. Ele achou que tinham potencial e pediu-lhe só para arranjar um pseudónimo. O primeiro nome, Vera, ela dizia que se relacionava com a verdade e ela queria escrever crónicas verdadeiras. Depois ela não sabia que apelido é que deveria usar e há um dia em que está a jantar com o Luís Sttau Monteiro e pede-lhe ajuda. E ele diz-lhe: “precisas de um apelido? Então, que vinho estamos a beber? Lagoa? É isso mesmo!” E ela fica com o apelido que estavam a beber nesse jantar.

Divide a biografia “Vera Lagoa – Um Diabo de Saias” em três grandes momentos da vida dela. Porquê esta ideia de três “nascimentos”?

Baseei-me numa frase dela em que dizia que nasceu três vezes. A primeira quando veio ao mundo, a segunda quando casou com o José Manuel Tengarrinha porque ele mostrou-lhe um mundo que, até então, desconhecia, ou que tinha aflorado muito superficialmente. Era um mundo cultural, também de clandestinidade e luta política. E nasceu a terceira vez quando surgiu se transformou em Vera Lagoa.

Aproveitei esta frase dela para dividir o livro em três partes. Não coincidem exatamente com o que ela diz, mas aproveitei a ideia. A primeira parte é desde que ela nasceu até 1966, o ano em que se transforma em Vera Lagoa. Não é uma transformação pessoal, ela não tinha dupla personalidade. Foi quando adotou o nome. O segundo momento é quando começa a escrever, até ao 25 de Abril; e depois é todo o percurso de 1974 até à sua morte.


Para este livro investigou vários arquivos e recolheu muitos testemunhos de amigos, conhecidos e familiares. O que é que mais a surpreendeu em Vera Lagoa?

Surpreenderam-me as crónicas anteriores ao 25 de Abril em que ela brinca, ironiza permanentemente com ministros e pessoas do poder. E, depois do 25 de Abril, surpreendeu-me o destemor dela. As crónicas que escreveu a seguir ao 25 de Abril são implacáveis.

No livro percebe-se que ela herda do pai grande parte dessa força de personalidade, ao mesmo tempo a preocupação com os mais pobres também. Isso também estava na escrita dos jornais?

Acho que sim. Ela preocupava-se profundamente com as pessoas. Escreve crónicas pungentes sobre os bandos de crianças havia em Lisboa a pedir esmola. Escreve sobre os refugiados do Vale do Jamor. Não havia ninguém que precisasse de ajuda, a quem ela ficasse indiferente. Era contra a sua maneira de ser. Segundo os relatos que ouvi, se ela visse alguém em dificuldade, só não ajudava se não pudesse.

Ao mesmo tempo, ela vive num meio intelectual, numa certa elite da época. É amiga de muitos artistas, tinha um gosto particular pela ópera. O que a movia?

Penso que ela buscava a beleza em tudo. Era apaixonada por exemplo, pelas Belas Artes, pelo teatro. Gostava de tudo o que lhe transmitisse beleza, a música por exemplo. Nesse sentido, também buscava a beleza da mulher. Gostava de moda, fez centenas de reportagens sobre moda exaltando a beleza da mulher.

Mas ela sempre recusou a ideia de ser uma feminista?

Não era mesmo feminista! Era uma mulher que lutava pelos direitos das mulheres, pela igualdade, por um salário igual para trabalho igual, lutava para que não houvesse discriminação. Nos sindicatos havia secções femininas e ela detestava isso. Defendia a igualdade. Mas preocupava-se muito mais com a pobreza que afetava, tanto homens, como mulheres. Ela lutava pela igualdade e dizia sempre que não era feminista e que não gostava das feministas!

"Ela preocupava-se profundamente com as pessoas e buscava a beleza em tudo."

No livro fica também muito patente o lado político de Vera Lagoa. Também aí foi mulher de convicções fortes?

Ela esteve ligada à oposição política ao Estado Novo. Dentro dessa oposição ligou-se muito ao grupo de artistas que contrariaram o mainstream. Podemos falar em Alves Redol, o [Marcelino] Vespeira, o [Mário] Cesariny. Ela conheceu, praticamente, todos esses artistas e na redação, contata com mundos também muito diferentes e isso vê-se nas crónicas antes do 25 de Abril. Vão desde as aberturas do Teatro Nacional de São Carlos, onde ela vai sempre bem vestida e assiste a ópera; e depois também as exposições, sobretudo da Sociedade Nacional de Belas Artes, que eram uma espécie de exposições paralelas ao poder.

Pensa que ela, já no tempo do jornal “O Diabo” e depois mais para o final da vida, sentiu um certo desencanto?

Penso que sim. Tendo sido ela uma pessoa que lutou pela democracia, nos últimos anos vê uma pacificação social e dos tumultos no país. Sendo um jornal muito político e combativo perde um bocadinho a sua razão de ser, e ela acaba um bocadinho triste e desapontada.

Quanto tempo levou a fazer este livro?

Levei dois anos e meio. Consultei milhares de exemplares de jornais. Tive de procurar as suas crónicas durante todos os anos em que ela escreveu no “Diário Popular”, depois coisas do jornal “O Diabo” e o “País”. Foi muito exigente. Depois tive de procurar bibliografia para contextualizar. Mas ela escreveu muito sobre tempos recuados da vida dela e isso ajudou-me bastante. Mas foi muito exigente em termos de investigação.

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