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​João Tordo: “As pessoas vão começar a transgredir, o ser humano não está feito para passar um ano isolado”

04 dez, 2020 - 09:00 • Maria João Costa

Diz já não ter a energia dos primeiros tempos de pandemia para escrever em confinamento. O autor João Tordo está a lançar o seu novo romance. “Felicidade” retrata o Portugal dos anos 70 e 80, mas usa uma estrutura clássica da tragédia grega.

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O protagonista do novo livro de João Tordo, tal como quem vive uma pandemia, não controla o seu destino. Se nos são impostas regras que devemos seguir, ao narrador, sem nome criado pelo escritor, o destino é conduzido por três gémeas que lhe “envenenam a vida”.

“Felicidade” é o novo romance de João Tordo. Editado pela Companhia das Letras, o livro recorre à ideia da tragédia grega, de um herói que está à mercê de forças que não controla. Sem querer contar tudo, o escritor confessa que se inspirou em personagens reais e pesquisou bastante para criar o cenário da obra. O romance passa-se no pré e pós-Revolução dos Cravos, fala da Guerra Colonial e das várias fileiras políticas de um país que vivia fraturado entre conservadores e liberais.

No livro que publicou antes de “Felicidade”, no “Manual de Sobrevivência de um Escritor” já falava deste romance que agora está a lançar, partilhava com os seus leitores as suas dúvidas. Por onde acabou por ir a escrita?

Sim, no livro anterior já tinha dado uma achega a este romance que conta a história de um rapaz de 17 anos que, em 1973, conhece na escola este trio de gémeas, as irmãs Kopejka. São três raparigas que frequentam o Liceu Passos Manuel e ele apaixona-se pela mais vistosa, a Felicidade, que é o nome do livro, é o nome da personagem principal, mas é também um estado de espírito, ou de alma. Essa paixão acaba mal, não posso revelar porquê, porque senão estrago a história a quem ler o romance!

Elas são as tais “Fúrias”

O romance trata dessa relação dele com essa tríade de Fúrias. Chamei-lhes Fúrias porque o livro está pensado como uma tragédia grega em três atos, com o narrador um bocado à mercê dos deuses e dos acontecimentos, muito impotente para travar aquilo que lhe vai acontecendo.

Apesar dessa estrutura grega, o romance passa-se nos dias de hoje.

Quis situar o romance no início dos anos 70, no período de transição. O livro apanha o 25 de Abril e a revolução e, depois, os anos que se seguem que são conturbados. O romance vai até 1988 e queria muito que o protagonista fosse um espetador quase passivo destes acontecimentos e lamentoso. Ele às tantas lamenta-se de estar a assistir à transformação política, social, sexual do mundo que o rodeia e ele continuar preso num dilema do qual não consegue sair, que são aquelas três gémeas que lhe envenenam a vida.

Como é que se preparou, como é que investigou essa época para construir o cenário do livro?

Parte dele tenho memórias. Eu sou de 1975. Por isso, não vivi precisamente os anos em que o romance começa. Eu preparei-me muito. Tinha uma ideia muito precisa sobre o que seria a história e há uma noite em que se dá o primeiro encontro entre o narrador e a Felicidade, e essa noite é fatídica. Há uma espécie de confluência entre Eros e Thanatos, as pulsões fundamentais do amor e da morte, e queria que as duas confluíssem numa mesma ocasião. Quando comecei a fazer uma investigação para tentar compreender como é que se vivia nesse tempo, em Portugal e em Lisboa, onde se passa o livro, fui falando com algumas pessoas e lendo alguns livros que descrevem a época.


Encontrou um Portugal muito diferente?

Há algumas coisas que mudaram, há uma ideia democrática que subjaz aos nossos dias, mas a representação da família do narrador, com um pai conservador e uma mãe liberal, com as duas forças, a esquerda e a direita, não é de todo diferente do modo como nós pensamos, agimos e nos situamos politicamente hoje em dia. Hoje há forças mais radicais que na época não eram tão presentes.

O outro lado da preparação foi ir buscar os pequenos objetos, e as pequenas coisas da época, dos rebuçados Dr. Bayard, aos carros desse tempo, ao sumo Fruto Real e até aos objetos que o narrador vai recebendo do seu tio que está na guerra. Há uma série de referências de época. A Guerra Colonial está muito presente no livro, porque o tio do narrador morre nela. Acaba por ser uma confluência de várias coisas muito próprias desse tempo.

Por quê usar a estrutura da tragédia grega, tão clássica num romance contemporâneo?

É uma capa assumida. Quando comecei a escrever ficção já tinha lido bastante sobre a escrita de ficção e fui muito influenciado pela poética do Aristóteles em que ele desconstrói a narrativa. Sobretudo, os autores a seguir a Aristófanes são muito interessantes porque deixam de ter os deuses como protagonistas do teatro grego e o homem passa a ser o principal responsável pelos seus atos e recetor das consequências dos seus atos. E isso interessava-me muito quando comecei a escrever.

Depois com o tempo fui mudando e adaptando outras formas de trabalhar, mas neste livro queria muito regressar a esse lado mais estruturado e quase estático, de uma narrativa grega para ver o que é que acontecia à personagem quando só uma pequena percentagem da sua vida é decidida por ela. É uma personagem à mercê de forças que não consegue controlar.

Já não é a primeira vez que recorre a personagens gémeas. Já em “O Ano Sabático” o tinha feito. Que fascínio é este que o fez regressar a esta tipologia de personagem?

Voltei sim, embora neste caso seja mais o resultado de uma observação real. Durante muitos anos vivi num bairro onde vivia uma família que tinha três filhas gémeas. Foi essa observação do quotidiano, de frequentar a mesma farmácia, o mesmo supermercado e bairro que elas. Demorei muito anos até compreender que estava ali uma história em potencial. Até que houve um dia em que saí de casa para ir às compras e reparei que elas já deviam ser adolescentes porque de repente havia três motas iguais! Percebi que aquelas raparigas que eram iguais, a vida ia torná-las diferentes. Cada uma delas assumiria um destino e uma personalidade. Isso interessa-me. Essa coisa de partir-se do mesmo lugar, até biológico e depois ir-se diversificando e ver o que é que acontece.

Como é que tem vivido estes dias da pandemia?

Para ser sincero, estou um bocadinho farto e cansado disto. Percebo tudo, acho que faz sentido estarmos afastados, mas há um outro lado meu que já não aguenta mais. Acho que estamos todos cansados desta situação. Há um lado nosso que deseja reaproximar-se e estar com os outros.

Mas com os níveis de contágio como estão, isso parece ser ainda longínquo.

Acho que o medo tem sido aquilo que ao longo da vida e, sobretudo nestes tempos, nos impede de fazermos as melhores coisas para nós próprios. Quantas vezes na vida olhei para trás e percebi que o medo me tinha impedido de agarrar uma oportunidade, conhecer melhor alguém, seguir por um caminho novo. Acho que o medo agora faz-nos ficar paralisados, no mesmo lugar. Não nos permite avançar. Creio que toda esta situação é suportável, mas espero que o fim esteja para breve.

E tem aproveitado para escrever?

No princípio foi mais ou menos simpático, porque na fase do ano em que começou a pandemia eu costumo ter muitas solicitações e fazer muitas viagens. Este ano não fiz nenhumas. Foi bom para me sentar e escrever. Nesse aspeto foi favorável, mas neste momento já não tenho essa energia que tive ao princípio. Acho que estamos a precisar de nos encontrar, embora compreenda que seja difícil por causa do vírus.

Acho que os seres humanos têm um limite e, às tantas, parece-me que o risco de sair à rua e estar com os outros, família e amigos, a partir de certo momento vai deixar de ser possível conter esse risco. Acho que as pessoas vão começar a transgredir ligeiramente, porque o ser humano não está feito para passar um ano isolado. Parece-me difícil. Mais três ou quatro meses e não me parece possível que os Estados e os governos, por mais ordens que deem, sejam capazes de manter as pessoas em casa desta maneira.

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