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Mortalidade em Portugal

Mortalidade em Portugal. 2020 estava a ser um bom ano, depois chegou a pandemia

21 out, 2020 - 00:08 • Ana Carrilho

O número de mortes diárias registadas em Portugal desde o início do ano até aos primeiros dias de março, quando foi registado o primeiro caso de Covid-19 em Portugal, era muito inferior ao registado no mesmo período de 2019 e à média dos cinco anos anteriores. Ainda a pandemia não tinha feito as primeiras vítimas no país, já o número total de óbitos disparava. E nunca mais parou.

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Em sete meses de pandemia, duas em cada três mortes adicionais são “não Covid". As contas são apresentadas pelo presidente da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla (SPEM), com base nos dados oficiais da Direção-Geral da Saúde (DGS).

Mas a verdade é que os recursos continuam a ser quase exclusivamente desviados para o combate à pandemia.

De acordo com a plataforma "Vigilância da Mortalidade", da DGS, entre janeiro e fevereiro deste ano o número diário de mortos situou-se entre os 300 e os 400, um valor ao nível de 2016, o melhor dos últimos cinco anos no mesmo período.

Foi a partir dos dados da autoridade de saúde que o presidente da SPEM, Alexandre Guedes da Silva, estabeleceu a comparação entre os óbitos diretamente atribuídos à Covid-19 e as que não estão relacionadas com a pandemia, que aterrou em Portugal em março.

2020 “estava a ser um ano bom, com dezenas de mortes a menos”, refere o presidente da SPEM, em declarações à Renascença.

Até 11 de março, salvo algumas exceções de janeiro e fevereiro, o número de pessoas que morreram em Portugal foi sempre inferior à média dos últimos cinco anos (2015-2019). Nalguns dias, com 50, 60, 70 ou mesmo 80 óbitos a menos.

A partir das 27 mortes registadas a 11 de março, os números totais começaram a aumentar, mesmo quando os óbitos por Covid-19 ainda eram reduzidos. E, quando estes aumentaram, ainda assim foram muito mais frequentes os dias com mais mortes não-Covid.

Mortalidade de julho continua por explicar

No dia 14 de julho de 2020, a plataforma da DGS registou mais 144 mortes do que a média desse dia nos cinco anos anteriores, sendo que 138 ocorreram por causas não relacionadas com o novo coronavírus. Na mesma semana, os registos apontaram um excesso entre os 100 e os 140 casos diários.

Ainda não há explicação para um número tão elevado de óbitos nesses dias e o calor não justifica tudo, apontam especialistas.

As métricas partilhadas pelo presidente da SPEM terminam a 15 de outubro, mas vão passar a ser regularmente atualizadas. Fazendo o balanço dos dados recolhidos, conclui-se que duas em cada três mortes adicionais são “não Covid”.

Até meio deste mês tinham morrido em Portugal 93.943 pessoas, mais 6.414 do que a média dos últimos cinco anos. Neste excedente contavam-se 2.128 casos de Covid-19, metade das mortes registadas por outras causas.

Dados para pressionar responsáveis

Cerca de 70 associações que integram a Convenção Nacional da Saúde pretendem usar os dados reunidos nesta tabela para convencer o Governo e as autoridades de saúde a não olharem apenas para o combate à pandemia, deixando para trás os outros doentes, sem consultas, sem diagnósticos, sem exames nem tratamentos.

Desde do início da pandemia foram canceladas cerca de 1,4 milhões de consultas - um terço das quais eram primeiras consultas de especialidade - e aproximadamente 100 mil cirurgias foram adiadas.

“O ano estava a correr bem e não fizemos nada, tudo descambou com a impreparação para os problemas que a Covid-19 viria a desencadear no sistema", lamenta Alexandre Guedes da Silva.

"Jogámos mãos a tentar resolver o problema. Mas os outros doentes foram esquecidos. Tivemos o 'milagre português', mas abrimos o flanco para a morte dos doentes não Covid, que não foram assistidos porque todos os recursos foram desviados para o combate à pandemia."

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