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​Soares, a Ucrânia e o PCP. "Complacência de esquerda em relação à invasão russa é inaceitável"

24 ago, 2023 - 06:52 • José Pedro Frazão , enviado à Ucrânia

João Soares está a acompanhar o Presidente da República na visita à Ucrânia, país que visitou por diversas vezes nos últimos 10 anos em missões de observação eleitoral. O antigo deputado socialista João Soares reconhece que terão sido cometidos "alguns erros" na Ucrânia em relação à língua russa.

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Soares, a Ucrânia e o PCP. "Complacência de esquerda em relação à invasão russa é inaceitável"

João Soares está a acompanhar o Presidente da República na visita à Ucrânia.

O antigo deputado socialista João Soares reconhece que terão sido cometidos "alguns erros" na Ucrânia em relação à língua russa.

Veterano de missões eleitorais no Leste da Europa, ao serviço da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, João Soares, que foi eleito em Lisboa em listas que integravam o PCP no início do século, faz a sua segunda visita ao terreno depois da invasão russa, tendo estado no último 25 de Abril na capital ucraniana

Qual é para si a relevância da visita do Presidente da República a Kiev ?

É da maior importância. Tem um significado simbólico que, em circunstância nenhuma, pode ser diminuído, porque é muitíssimo importante, como, aliás, a visita que o primeiro-ministro tinha feito também há cerca de um ano. Marcam aquilo que é uma matéria sobre a qual há um consenso generalizado na sociedade portuguesa, que é a condenação de uma agressão e de uma invasão.

Como muito bem disse, em Moscovo, o secretário-geral das Nações Unidas e nosso compatriota António Guterres, não há um soldado ucraniano em território russo e há milhares de soldados russos em território ucraniano. Isso chama-se uma agressão e chama-se uma invasão. E uma agressão particularmente bárbara que temos tido a possibilidade de assistir, infelizmente, aos bombardeamentos sobre cidades que ficaram completamente destruídas.

Compreende a posição do PCP, que se distanciou desse consenso sobre a visita do Presidente da República a Kiev?

Ainda não percebi exatamente, mas é inaceitável para pessoas de esquerda - e sou um homem de esquerda - terem a menor das complacências com a agressão e invasão que as forças russas estão a fazer. Forças russas apoiando-se em mercenários, que é uma coisa que a esquerda sempre condenou, como aquele senhor da Wagner e aquelas barbáries que fizeram em Bakmut, em Mariupol, nomes das cidades da Ucrânia que ninguém conhecia e que foram completamente arrasadas, com escolas, teatros, óperas, jardins de infância, hospitais que foram bombardeados sabendo muito bem o que é que estavam a bombardear. Isto é completamente inaceitável. Eu sou um homem de esquerda e, portanto, para mim, é completamente inaceitável. Mas acho que isto não tem que separar esquerdas e direitas.

Este conflito representa um momento viragem em relação ao trabalho da OSCE, ao serviço da qual esteve aqui por diversas vezes em missões eleitorais ?

Infelizmente, a OSCE está num processo de grande decadência. Era a grande plataforma de diálogo entre as várias forças presentes neste cenário , nomeadamente a Federação Russa, os Estados Unidos da América e Europa Ocidental e os Estados da Ásia Central. Foi graças ao trabalho da OSCE que o pude conhecer todos estes países. Vim mais de sete vezes à Ucrânia e chefiei duas ou três missões de observação eleitoral, nomeadamente as últimas eleições em 2014 em que foi eleito o Presidente Poroshenko. Conheci bem os protagonistas políticos.

E conheceu também a influência russa no Leste da Ucrânia, no Donbass...

Estive em Donetsk antes do aeroporto ter sido destruído em 2014, na fase das eleições presidenciais. Acompanhei, por exemplo, algo que já está esquecido como o derrube do avião da KLM por cima do Donbass com material russo. São coisas imperdoáveis, que não podem ser esquecidas.

Há uma presença russa russófona muito importante naquela zona do da Ucrânia. Como como lidar com isso num eventual processo de paz ?

Sempre houve uma presença russófona muito importante. A língua russa tem uma importância muito significativa. Sempre que aqui estive tive que me fazer acompanhar de intérpretes porque não entendia nem ucraniano, nem russo. E a maioria das pessoas com quem falei - Julia Timoshenko, o ex-Presidente Yuschenko, Yanukovich nas eleições que ganhou a Tymoshenko e depois Poroshenko - falavam com intérprete. Eu perguntava ao intérprete em que língua me traduzia e a maioria deles estavam a falar em russo. O russo tem uma presença dominante, ainda hoje é uma língua muito importante.

Talvez tenham sido cometidos alguns erros ao subalternizar a língua russa. Agora, isso não justifica esse crime inacreditável que é uma invasão e uma agressão desta natureza.

Comentários
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  • ze
    24 ago, 2023 aldeia 08:52
    O PCP sem.pre foi coerente nas suas ideias, nunca escondeu a sua fidelidade á russia, mas também há socialistas que gostam de moscovo e de Putin

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