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Presidente afegão avança com consultas para terminar conflito com talibãs

14 ago, 2021 - 11:15 • Lusa

A decisão é anunciada depois do apelo ao diálogo pelo secretário-geral da ONU, numa altura em que os talibãs já controlam 18 capitais do país e a Human Right’s Watch pede ajuda para os civis.

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O Presidente afegão, Ashraf Ghani, informou neste sábado que está a desenvolver contactos políticos com vista a restabelecer a "paz e estabilidade" no país, onde os talibãs têm vindo a conquistar terreno numa ofensiva contra as forças afegãs.

"Iniciei consultas", que "estão a avançar rapidamente" dentro do Governo, com líderes políticos e com parceiros internacionais, para encontrar "uma solução política em que a paz e a estabilidade sejam proporcionadas ao povo afegão", anunciou Ghani, numa declaração transmitida pela televisão, a primeira desde os grandes avanços das forças rebeldes nos últimos dias.

“A remobilização das nossas forças de segurança e defesa é a nossa prioridade número um”, acrescentou.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas já manifestou a sua preocupação com a escalada da violência no Afeganistão na sequência da ofensiva militar lançada pelos talibãs e instou os rebeldes e o Governo a negociar.

O número de capitais provinciais afegãs dominadas pelos talibãs em pouco mais de uma semana elevou-se neste sábado a 18, após a captura nas últimas horas de Sharana, capital da província de Paktika, no sudeste do país.

18 capitais sob controlo talibã

Citando pela agência Efe, o deputado da câmara baixa do Parlamento afegão Cálix Asas disse que os talibãs entraram na cidade de Charrana e que o controlo da cidade lhes foi entregue pacificamente e “sem disparar uma bala”.

Os talibãs também já reivindicaram a captura da capital provincial.

"Os mujahideen do emirado islâmico [como os talibãs se autodenominam] entraram na cidade de Sharana, em Paktika. Todos os postos de controlo defensivos na cidade foram conquistados", informou na rede social Twitter o porta-voz, Zabihullah Mujahid.


A queda da Sharana ocorre num contexto do avanço imparável dos talibãs que, após a fase final da retirada de solo afegão das tropas dos EUA e da NATO do Afeganistão, aumentaram as suas ofensivas.

A agência AP indica, entretanto, citando autoridades afegãs, que os talibãs prosseguem ofensivas noutros pontos do país, tendo tomado uma província ao sul da capital do Afeganistão e lançado um ataque a uma grande cidade no Norte.

Nos últimos três meses e meio, os rebeldes assumiram o controlo de 140 centros distritais, 18 capitais de província e quase dez passagens de fronteira, a maior conquista territorial em duas décadas de guerra.

Human Rights Watch apela: ajudem os civis

A organização Human Rights Watch (HRW) apelou neste sábado aos governos estrangeiros que ajudem a sair do Afeganistão os civis em risco de serem perseguidos pelos talibãs e que suspendam “imediatamente” as deportações de quem fugiu do país.

Na última semana, metade das capitais de província afegãs (17 das 34) foram conquistadas pelos talibãs, que “têm uma longa história de abuso ou morte de civis que consideram 'inimigos'", alerta Patricia Gossman, diretora da HRW Ásia, acrescentando que tanto os governos quanto as agências da Organização das Nações Unidas (ONU) "devem fornecer proteção e ajudar afegãos em risco e tornar o processamento de documentos de viagem e transporte uma prioridade".


A organização defende que os governos estrangeiros presentes no Afeganistão "devem priorizar a emissão de vistos e ajudar a garantir a passagem segura de civis [afegãos] que os talibãs possam atacar por causa de seu trabalho ou estatuto anterior, juntamente com os seus familiares diretos".

Entre os civis em perigo, a organização não-governamental aponta todos aqueles que trabalharam no país "para promover os direitos humanos, a democracia e a educação; académicos, escritores, jornalistas e outros profissionais de média" assim como pessoas que trabalharam em países estrangeiros, avança a agência de notícias espanhola, Efe.

A organização também entende que estão em maior perigo os "membros de minorias étnicas e muçulmanos xiitas, particularmente os hazaras".

Além do apelo para que ajudem a sair do país quem corre risco de vida, a HRW apelou aos governos que suspendam "imediatamente" todas as deportações e retornos forçados ao país, pois "os afegãos que fogem do Afeganistão devem ter oportunidades significativas de solicitar asilo".

A organização apelou também às Nações Unidas e à ONU para aumentarem "a ajuda humanitária aos países vizinhos para os quais os afegãos estão fugindo e apoiar os países que os admitem" e para reforçar "o apoio para evacuação de emergência, realocação e operações de reassentamento para afegãos" em terceiros países.

A ofensiva dos talibãs no Afeganistão, que está a conquistar rapidamente os centros urbanos do país, já causou 3,3 milhões de deslocados no país, segundo dados avançados esta semana pela Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR).

Desde maio, foram contabilizados 250 mil deslocados, dos quais 80% são mulheres e crianças, aos quais se somam mais 150 mil pessoas que tiveram que deixar as suas casas entre janeiro e maio, refere a ACNUR.

Na sexta-feira, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou os talibãs que cessassem as hostilidades e negociassem com o Governo, alertando que uma tomada do poder pela força desencadeará uma guerra civil ou isolamento internacional.

Lembrou ainda às duas fações do conflito que alvejar civis constitui crimes de guerra, pelos quais serão responsabilizados.

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