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Coronavírus

Medo e incerteza marcam o arranque das aulas em Cabo Delgado, Moçambique

18 mar, 2021 - 20:30 • Henrique Cunha , Pedro Mesquita , Filipe d'Avillez

A Igreja e as ONG estão muito preocupadas com a sorte de centenas de milhares de crianças que tiveram de abandonar as suas casas e não poderão ter acesso à escolaridade normal num país que defronta uma insurgência jihadista em Cabo Delgado.

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O ano letivo em Moçambique arranca na quinta-feira e na região de Cabo Delgado o clima de instabilidade provocado pelo terrorismo é mais um fator de preocupação para a população, para as ONG de apoio às crianças e para a Igreja moçambicana.

A Conferência Episcopal de Moçambique defende que "apenas esforços conjugados podem minorar a situação vivida em Cabo Delgado".

Em entrevista esta quinta-feira à Renascença, o porta-voz da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM), D. João Carlos Nunes, afirma que só através de uma "solidariedade coordenada" se consegue enfrentar a situação que se abateu sobre a região ao longo dos últimos três anos, com uma sucessão de ataques levada a cabo por alegados jihadistas que já fez milhares de mortes e centenas de milhares de deslocados.

"Internamente não é possível enfrentar aquela situação, porque são milhares de pessoas que agora procuram reconstruir a sua vida fora e muitas vezes em condições precárias. Daí advém não é só a questão da Covid mas cuidados primários de saúde que são necessários também, então é preciso uma conjugação de esforços, uma solidariedade coordenada, para se enfrentar a situação. Daí a necessidade da transparência, do diálogo, de enfrentar o problema, que não haja zonas de ação que outros não saibam, porque só esforços conjugados é que podem minorar e atenuar a questão de Cabo Delgado", diz.

O bispo da diocese de Chimoio, na Província de Manica, no centro do país, refere que a maioria dos refugiados são mulheres e crianças. "Os homens estão na guerra certamente. E certamente há um grupo que não é muito visível, mas que deve estar a padecer também desta situação, que são os idosos, porque não têm como correr, como sair, não é muito aprofundada esta questão, mas parece-me que os idosos também estariam entre este grupo".

O porta-voz da Conferência Episcopal de Moçambique insiste na ideia de coordenação e mostra-se preocupado em particular com o início do ano letivo. "Como é que se vai acautelar a questão das aulas para esses refugiados? Essas crianças que precisam também de ter aulas?”

“É uma zona que precisa de ser melhorada, com o perigo de estarmos a fazer o mesmo, ou então haver áreas que estão fora da ajuda seja de quem for. Parece-me que falta mais trabalho de coordenação. É verdade que ao nível da Igreja também se tenta ajudar e apoiar, mas são atividades soltas, porque já atinge indiretamente as províncias vizinhas que acolhem essas pessoas."

O ano letivo em Moçambique arranca na sexta-feira e esta é também a grande preocupação da Helpo, uma organização não governamental a trabalhar na região de Cabo Delgado desde 2009.

Carlos Almeida, coordenador da organização em Moçambique diz que a situação é de grande fragilidade. "A grande preocupação neste momento é o arranque do ano letivo e este ano vai ser duplamente marcado em Cabo Delgado. Há a questão da pandemia de Covid-19 e também a questão dos insurgentes e cerca de 700 mil deslocados, contando que cerca de metade são crianças, grande parte em idade escolar. Deixa-nos com uma sensação de grande fragilidade".

Carlos Almeida, recém-chegado à região, admite que muitas crianças não vão ter acesso à sala de aula: "Em Cabo Delgado temos muitas crianças que estão fora da sua aldeia, sem condições para estudar, algumas sem documentos, e a Helpo, nas comunidades onde está, está a fazer um esforço grande para que essas crianças não fiquem fora da escola. Somos uma gota de água, outras organizações estarão a fazer o mesmo trabalho, mas aquilo que mais me preocupa é isso, muitas crianças vão estar fora da sala de aula."

O coordenador da Helpo refere que já lhe chegaram “relatos de cenas de terror”, mas diz que nunca lhe chegaram ecos de casos de decapitação de crianças, como referiu esta semana a ONG britânica Save the Children. “Ouvimos falar de pessoas raptadas. De decapitações, aquilo que temos ouvido é precisamente através de relatórios que são feitos, cuja real veracidade fica difícil de perceber. Agora, a verdade é que não ouvimos falar de decapitações. Ouvimos falar de sofrimento, de longas caminhadas, de perder as casas, de perder todos os bens. Nas comunidades onde estamos a trabalhar ouvimos relatos de cenas de terror, porque a maior parte das pessoas com quem tivemos a possibilidade de conversar tinham fugido não como prevenção de ataques, mas durante os próprios ataques”.

Os atos de terrorismo em Cabo Delgado já provocaram mais de duas mil mortes e cerca de 700 mil deslocados.

Em Moçambique decorrem esforços militares para tentar travar a violência em Cabo Delgado. Portugal comprometeu-se a colaborar com as autoridades moçambicanas através da formação de comandos e fuzileiros do exército moçambicano.

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