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Entrevista a Manuel Caldeira Cabral

Ex-ministro da Economia contra "aumento de impostos e reduções de despesa abruptas" nos próximos anos

13 abr, 2021 - 22:30 • Sandra Afonso

Manuel Caldeira Cabral defende mais apoios sociais para recuperar a economia, mas de forma equilibrada. Em entrevista à Renascença, o ex-ministro da Economia de António Costa alerta que setores como o Turismo vão precisar de "medidas prolongadas" e aponta limitações ao Plano de Recuperação e Resiliência.

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Manuel Caldeira Cabral entrevistado pela jornalista Sandra Afonso
Ouça aqui a entrevista de Manuel Caldeira Cabral à jornalista Sandra Afonso

Até 2023 "não se deve fazer um aumento geral de impostos nem reduções de despesa abruptas". O aviso é deixado pelo ex-ministro da Economia Manuel Caldeira Cabral, em entrevista à Renascença.

O economista lembra que todos vão acabar por pagar o custo da crise, como sempre acontece, mas nos próximos anos o Governo e Bruxelas devem admitir um défice acima do desejado.

O professor universitário defende ainda o aumento do salário mínimo, para combater a pobreza, e mais apoios sociais para recuperar a economia, mas de forma equilibrada. Por isso, concorda com a decisão do Governo de enviar para o Tribunal Constitucional os aumentos dos apoios extraordinários promulgados por Marcelo Rebelo de Sousa.

Sobre a recuperação económica, apesar da incerteza e do risco que subsistem, Caldeira Cabral antecipa uma saída rápida da recessão após a imunidade de grupo. Ainda assim, avisa que, em setores como o Turismo, algumas empresas vão demorar mais de uma década a recuperar, por isso são necessárias medidas prolongadas. Há ainda medidas a terminar que precisam de soluções de transição, como as moratórias, defende o ex-ministro.

Nesta entrevista à Renascença, Caldeira Cabral fala ainda do livro que acaba de publicar, “Construir uma Alternativa – a política económica da geringonça e a resposta à crise da covid-19” (Ed D.Quixote), aponta fragilidades no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e admite um Orçamento Retificativo para este ano.

Manuel Caldeira Cabral, que assumiu a pasta da Economia no primeiro Governo de António Costa, comenta ainda a Operação Marquês e promete continuar por aí, não fechando a porta a um regresso à governação.

Quais são os principais desafios neste momento: retomar o crescimento, estancar o desemprego, recuperar o rendimento das famílias, travar as falências?

Em primeiro lugar, estão os desafios sociais: estancar a perda de rendimento, criar apoios para quem precisa e fazê-los chegar rapidamente, foi o que se fez no último ano e meio, mas é importante que se continue a fazer.

Em segundo lugar, evitar que esta crise leve consigo empresas viáveis, empresas que são competitivas, mas que foram apanhadas pela crise e que, por terem estado dois anos sem procura, podem acabar por falir. Perderíamos, assim, um embalo grande que essas empresas podem dar para a retoma.

Em terceiro lugar, olhar para os setores que estão já a crescer e para os que têm grande potencial de crescimento nos próximos meses e anos, e apoiar o investimento nesses setores, para que possam, eventualmente, compensar as perdas que a economia vai ter noutras áreas.


"O Governo insiste na sua luta pela norma travão e eu penso que bem, porque a norma travão também é importante porque é preciso equilibrar todos os apoios sociais"

Em relação às famílias, um estudo publicado esta semana revela que um em cada cinco portugueses vive em pobreza e cerca de 60% destes pobres trabalham. São dados até 2018, ou seja, podem agravar-se com esta crise. No seu novo livro, tem um capítulo dedicado à melhoria do emprego e redução da pobreza. Como se combatem estas estatísticas?

A política que se fez em 2015 e 2019 é um bom exemplo de como a pobreza pode ser combatida: o programa que relançámos em 2015, centrado na reposição de rendimentos, num reforço dos apoios sociais, ao mesmo tempo que tinha uma componente muito forte de apoio ao investimento. Ajudou a que se gerasse mais crescimento económico e que beneficiasse particularmente os mais pobres.

O que se vê, ao longo do período, é que os salários mais baixos aumentam proporcionalmente mais, num contexto em que todos os salários aumentam, o salário mínimo, em particular, aumenta mais, e essa questão de haver muita gente a trabalhar, mas em situação de pobreza, está ligada ao salário mínimo muito baixo e à existência de muitas pessoas em trabalho precário.

Qual é a solução?

É preciso combater essa precariedade, continuar progressivamente a aumentar o salário mínimo e é preciso que, neste relançamento da economia, se aposte também nas políticas e nos apoios sociais, como o Governo está a fazer e, com isso, está a apoiar quem mais precisa e a garantir que não há uma queda tão abrupta da procura, o que ajuda a atenuar os efeitos macroeconómicos da crise.

Um dos aspetos terrível da pobreza é a infantil e este é não só um problema social imediato, mas é, também, um problema de crescimento económico futuro. Se estas crianças não tiverem condições para sair da pobreza, não vão contribuir para o crescimento económico futuro e num país com tão poucas crianças não podemos desperdiçar o contributo de ninguém, temos que dar oportunidades a todos.

As atuais políticas sociais são suficientes?

Os apoios sociais são sempre mais baixos do que desejaríamos. O Governo, nesta situação de crise, alargou apoios sociais que dantes se destinavam apenas aos desempregados de forma convencional, para apoios também aos trabalhadores independentes, aos gestores, entre outros.

Isso foi importante e é preciso continuar a alargar os apoios, mas é preciso também políticas ativas de combate à pobreza e combate às situações mais extremas de pobreza, como os sem-abrigo, pessoas com filhos dependentes em situações de quase miséria.


"O fim das moratórias vai trazer um aumento do crédito malparado, isso é quase inevitável. A questão é: qual é a escala? Penso que é possível, pelo menos ao nível das empresas, desenhar instrumentos que possam apoiar as empresas a sair das moratórias e a terem outros apoios"

Neste momento assistimos a um braço de ferro entre Belém e São Bento, devido à despesa com apoios sociais.

A discussão que se criou acabou por ter uma solução em que os apoios vão aumentar, mais do que estava inicialmente previsto, e isso não será devolvido no final. Mas, em que o Governo insiste na sua luta pela norma travão e eu penso que bem, porque a norma travão também é importante porque é preciso equilibrar todos os apoios sociais.

Infelizmente, não eram apenas estes apoios sociais, que nós podemos dizer que são baixos, há muitos outros apoios sociais que nós podemos dizer que são mais baixos do que nós desejaríamos e que, de facto, se espera que se venham a reforçar, mas têm que ser todos reforçados conjuntamente e de uma forma equilibrada.

Comparando a forma como os Estados Unidos e a União Europeia têm respondido à crise, os norte-americanos têm optado por um modelo diferente, de apoios diretos às famílias, com cheques, crédito fiscal, descontos nos seguros de saúde, etc... Já a Europa responde com apoios sociais, apoios às empresas, linhas de crédito, apoio a fundo perdido, entre outros. Qual é o melhor modelo?

Pode ser discutido qual o melhor modelo, mas penso que o melhor para os EUA não vai ser o melhor para os países da UE. Se em Portugal estivéssemos a dar dinheiro a todas as pessoas, com a capacidade orçamental que temos, que é bastante diferente da dos Estados Unidos, seria um montante limitado que iria ajudar muitas pessoas, mas também seria recebido por muitos que não precisam realmente desse apoio.

Nos Estados Unidos entendeu-se que seria um estímulo à economia, mas quando as pessoas estão em confinamento não vão gastar mais nos restaurantes que precisam de apoio, não vão gastar mais nos hotéis porque não podem lá ir. O que vemos é que grande parte dessas pessoas até aumentaram a poupança e, portanto, vão poder gastar mais sem terem recebido nada do Estado, apenas porque durante vários meses não puderam gastar. Portanto, esse estímulo à procura vai existir, mas penso que foi mais útil estes apoios mais focados nos setores mais afetados, dada a limitação da capacidade orçamental.

Não defendo que a política que se está a fazer na Europa é a que se devia fazer nos Estados Unidos, mas que é a mais correta para a nossa circunstância em Portugal. De qualquer forma, a política europeia e americana neste momento, em termos macroeconómicos, é muito mais semelhante do que foi na crise anterior, em que os Estados Unidos fizeram uma política mais expansionista, quer monetária, quer orçamental. A UE fez essa originalidade, que foi um erro tremendo, que foi uma política de austeridade e recessiva em cima de uma recessão. É muito bom ver que aprendeu.


Uma das ferramentas mais utilizada, por empresas e famílias, têm sido as moratórias. É possível ultrapassar o fim desta medida sem agravar o malparado?

Penso que o fim das moratórias vai trazer um aumento do crédito malparado, isso é quase inevitável. A questão é: qual é a escala? Penso que é possível, pelo menos ao nível das empresas, desenhar instrumentos que possam apoiar as empresas a sair das moratórias e a terem outros apoios: linhas de crédito mais longas, períodos de carência ou até instrumentos de capital que permitam às empresas financiar-se e não ficarem em situação de malparado.

Mas isso deverá focar-se nas empresas que realmente precisam. Deve ser negociado com os bancos, mas, também devem ser criados instrumentos públicos, por exemplo, ao nível do Banco de Fomento, que permitam que essa renegociação aconteça antes de sair abruptamente a moratória e, depois, haver uma escalada de malparado.

Nas famílias, se se mantiver uma situação de recuperação, poderá não haver um número de casos tão elevado como se teme, mas devem também ser criados instrumentos sociais de apoio, para evitar que, mesmo sendo um número mais limitado do que o número das empresas, possa haver famílias que ficam em situações muito difíceis.

O Governo e os bancos estão a confiar que a economia começa a abrir no verão, mas o impacto não deverá ser imediato. Só no Turismo, um setor que neste livro defende que deve ser prioritário, o alojamento e a restauração têm mais de metade do crédito suspenso. Mesmo acreditando que no início do Verão já há imunidade de grupo, o setor não terá recuperado logo?

O setor não terá recuperado aos níveis de 2019. Mas, mesmo em 2020, que estávamos a meio da pandemia, viu-se uma recuperação grande no setor do Turismo nos meses de Verão.

O problema foi que depois em setembro, outubro, voltou subitamente para níveis muito baixos. Portanto, um verão que foi a meio-gás, não foi normal no Turismo, foi seguido de um outono com reduções brutais da procura. Se este verão for melhor e se o outono não fechar completamente, se não existir quarta vaga, muitas unidades hoteleiras podem sair desta crise pelo seu próprio pé.

No entanto, muitas outras [empresas do setor do turismo] vão precisar de apoios prolongados, porque só conseguirão sair da situação financeira difícil em que estão em 2022, 2023, 2024. Se tiverem instrumentos financeiros que lhes permitam fazer uma ponte por cima destes anos de dificuldade, podem no prazo de sete, oito, dez ou 12 anos voltar a uma situação financeiramente mais folgada. Por isso, precisam desse estender de prazos, condições mais favoráveis de créditos e, eventualmente, também alguns instrumentos de capital ou até a fundo perdido. Isso será muito verdade no setor do Turismo, noutros setores, eventualmente, a recuperação será mais rápida.


"Muitas outras [empresas do setor do turismo] vão precisar de apoios prolongados, porque só conseguirão sair da situação financeira difícil em que estão em 2022, 2023, 2024"

Será necessário aumentar impostos para pagar esta crise?

Isso terá de ser visto ao longo da próxima década, teremos que ver se a recuperação da economia é rápida e forte, como hoje preveem todas as instituições internacionais.

Quando há uma crise e aumenta o endividamento, temos que pensar que na década seguinte temos que usar o crescimento económico para ir reduzindo esse endividamento, mas o crescimento económico poderá gerar por si receitas suficientes para ir reduzindo o peso da dívida no PIB e para equilibrar as contas públicas. Penso que isso poderá ser suficiente, sem necessidade de aumento de impostos.

Seria errado estar a fazer aumentos de impostos este ano, 2021, e mesmo em 2022 deve evitar-se um aumento dos impostos, deve-se deixar antes que seja o crescimento da economia a gerar um aumento de receita.

Agora, não tenhamos ilusões, isso não significa que esta crise não tem um custo e que esse custo não vai ser pago. Ao estarmos a falar na redução do endividamento nos próximos anos, significa que a folga que o crescimento económico trará, em vez de poder ir para baixar impostos ou para aumentar a despesa pública em áreas que seria necessário - melhorar os serviços públicos para todos -, terá que ser usada com muito mais moderação, porque teremos também uma situação de muito maior endividamento e vamos entrar nesta década com um défice mais elevado, quando estávamos antes desta crise com as contas públicas equilibradas e até com o primeiro superavit da história.

Esse custo vai ser pago por todos, como é sempre pago quando há um aumento do endividamento. É um custo que tem sempre que ser pago no futuro, o que evita aprofundar a crise, mas não vamos ter a ilusão de que não é pago. É pago por todos nos impostos que pagamos, é pago por todos nos serviços públicos que são contrapartida desses impostos, que serão menores do que se não houvesse uma necessidade de reduzir o endividamento.

Mas eu penso que isso deverá ser feito com mais força a partir de 2023, 2024, em que já estará a economia a crescer e a crise pandémica absolutamente ultrapassada. Enquanto durar a crise pandémica e económica, penso que não se devem ter políticas económicas contracionistas. Mesmo que se aumente um imposto e que se desça outro, não se deve fazer um aumento geral de impostos nem reduções de despesas abruptas, deve-se aceitar a ideia de que durante 1 ou 2 anos poderemos manter défices acima do que seria desejável.

É inevitável falarmos da banca. Segundo o INE, o esforço dos portugueses com os bancos voltou a subir no ano passado. Desde 2008, os bancos custaram mais de 22 mil milhões aos contribuintes. Já 85% dos 7.100 milhões de ajudas às empresas, anunciados em março, são impostos adiados. Há aqui um grande desequilíbrio na ajuda do Governo?

Há claramente uma visão em que se deu muitos apoios à banca, e realmente deu-se, isso custou-nos muito caro. Mas teria custado muito mais caro aos cidadãos e às empresas se não tivéssemos estabilizado o sistema financeiro. O custo de ter um

sistema financeiro a funcionar foi ampliado ainda mais por políticas erradas do Banco Central Europeu, que nesta crise está a seguir políticas diferentes, está a manter as taxas de juro baixas e o financiamento do sistema está a decorrer sem os mesmos problemas que teve antes, pelo menos até agora.

Foi um custo elevado, mas não foi um custo que tivemos para salvar os banqueiros, porque gostamos muito deles, este esforço foi para salvar as poupanças das pessoas, para salvar o sistema financeiro, para que as empresas e a economia tivessem financiamento e a economia voltasse a crescer.

Mas foi um custo muito elevado e temos de estar atentos, porque qualquer falha no sistema financeiro e no sistema bancário, em particular, terá sempre custos muito elevados e sabemos que eles depois acabam por ser pagos por todos nós.


"Seria errado estar a fazer aumentos de impostos este ano, 2021, e mesmo em 2022 deve evitar-se um aumento dos impostos, deve-se deixar antes que seja o crescimento da economia a gerar um aumento de receita"

Portugal prepara-se para receber mais de 60 mil milhões de Bruxelas, nos próximos anos. É desta que reformamos e resolvemos os problemas estruturais do país?

Os fundos estruturais que vieram nos últimos anos deram um contributo importantíssimo para a alteração do padrão de especialização da economia portuguesa. Se compararmos o que a economia portuguesa exporta hoje e no início do século, vemos uma alteração muito forte. Ganharam muito mais peso setores tecnológicos, como o automóvel, setores de máquinas e equipamentos, materiais de precisão, metalomecânica, setores industriais mais exigentes e complexos, como também os serviços tecnológicos, por exemplo.

Temos de saber utilizar bem os fundos estruturais que estão a chegar e usá-los, exatamente, para continuar esse processo de transformação da economia portuguesa, em que consegue crescer e afirmar-se como competitiva em setores que não são facilmente deslocáveis para países de mão-de-obra barata, porque exigem mais engenharia, mais mão de obra qualificada, são mais exigentes tecnologicamente. Isso já aconteceu, nos últimos 10 a 20 anos, em alguns momentos de forma mais acelerada e noutros de forma menos acelerada. Deverá continuar a acontecer e penso que os apoios estarem em alguns aspetos dirigidos ao digital reforça esse processo, que já vinha também da estratégia da indústria 4.0, de reformas que lançámos logo em 2016.

O apoio que vem também para projetos de inovação colaborativa, entre universidades e empresas, seguiu também o que fizemos com o Programa interface, ou o que se está a ver com o crescimento das empresas tecnológicas e das “startups”.

Temos que continuar a ajudar esse investimento, temos que envolver cada vez mais o tecido científico e tecnológico na relação com as empresas, para reforçar a capacidade de inovação. Portugal é hoje o único país do sul da Europa classificado pela UE como fortemente inovador, isso é um salto que nos diferencia de muitos outros países do sul e até no leste da Europa, como um país com uma capacidade de inovação e capacidade de integrar cadeias mais exigentes em termos tecnológicos, que deverá depois refletir-se na produtividade e na nossa capacidade de sermos mais competitivos, com salários mais altos.


Temos dado passos na inovação, mas depois há reformas como a da habitação que estão atrasadas ou a descentralização que não avança, grandes projetos que não saem do papel. Somos um país de anúncios, programas, grupos de trabalho, estudos e debates? O que é que é preciso para, por exemplo, o novo aeroporto de Lisboa avançar? Acordos de regime?

Quando cheguei ao Governo, em seis meses tínhamos uma política para as “startups”, em seis meses tínhamos uma política para a digitalização da indústria e fomos o sexto ou sétimo país da União Europeia a aplicá-la.

Outras áreas são complexas e a sociedade portuguesa tem que chegar a consensos. Por exemplo, tem havido algum bloquear dos grandes investimentos, pela complexidade que têm nos momentos de decisão, de financiamento, da aprovação, por exemplo, em termos ambientais. Tudo isso demora um tempo grande e muitas vezes mudam governos a meio e depois mudam as prioridades e há uma discussão pública que se tornou muito difícil de gerar esses consensos. Mas é necessário, porque, em algumas dessas áreas, temos tido decisões que demoram muito tempo a ser tomadas e, depois, são revertidas e, depois, são outra vez estudadas e isso não é bom para o país.

O que é preciso fazer para chegar a estes consensos? Estamos a gastar tempo e dinheiro, sem que nada mude.

Um dos aspetos que apresento no livro, que foi importante antes de iniciar as políticas, em alguns casos mesmo antes de ir para o Governo, foi o facto de termos estudado as melhores práticas internacionais, o que se tinha de fazer, e reunimos também os atores das várias áreas para discutir com eles quais eram as diferentes possibilidades.

Quando se envolvem todos estes “stakeholders” consegue-se fazer melhor um desenho de uma política que não tem que ser, obrigatoriamente, consensual na sociedade, mas é assumida como se fosse deles. Isso foi muito importante em algumas das políticas para depois a forte adesão que tiveram aos instrumentos.

Nestas áreas, em que a decisão é longa e em que existem todos estes processos decisórios e depois estão dependentes de agências independentes, tem que haver um consenso político, mas tem que haver também uma capacidade de, ao nível das agências que fazem a fiscalização, de haver prazos de resposta mais rápidos e também decisões que sejam escrutinadas.

Penso que em algumas destas decisões, e viu-se agora com o aeroporto [de Lisboa], o facto de apenas algumas câmaras ou câmara municipal poderem vetar todo o processo é, talvez, exagerado. Como haver algumas instituições que, obviamente, têm que ser chamadas a pronunciar-se, mas que podem bloquear todo o processo, por razões que, às vezes, não têm que justificar no debate público, também pode ser errado.

É preciso criar aqui um equilíbrio, e isto não é só válido para os projetos públicos, é muitas vezes válido também para alguns projetos privados que demoram tempo a avançar.


"Tem que haver um consenso político [sobre grandes projetos], mas tem que haver também uma capacidade de, ao nível das agências que fazem a fiscalização, de haver prazos de resposta mais rápidos e também decisões que sejam escrutinadas"

Esta semana, dia 16, é apresentado o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) ao Presidente da República. Como avalia o documento?

Penso que o PRR tem que ser avaliado em conjunto com os outros instrumentos. É um programa que tem duas prioridades: a transição digital e a sustentabilidade ambiental. Mas também tem a reindustrialização e os projetos mobilizadores. Isso cria uma possibilidade de reformas estruturais, importantes para a modernização da economia portuguesa, mas deve ser visto como complementar ao novo quadro comunitário, que vai de uma forma mais abrangente apoiar a inovação produtiva, por exemplo, projetos que não são de grandes alterações, mas que apoiam o investimento de empresas que querem melhorar a sua promoção. Deve ser também articulado com os programas que serão financiados pelo Orçamento, isto é, os apoios sociais, os apoios às empresas neste contexto de crise não podem ficar à espera do PRR nem do novo quadro.

Estas prioridades para o futuro e para o relançamento devem fazer parte da recuperação, para que não seja só voltar ao ponto em que estávamos em 2019, mas seja voltar a uma trajetória de transformação da economia portuguesa. É importante que não fiquemos para trás nesse comboio.

Mudava alguma coisa neste PRR? Há quem o critique por dar demasiado apoio ao setor público, em detrimento das empresas.

Isso tem que ser feito em complementaridade com o novo quadro plurianual. O que se pretende, e devemos estar muito atentos a isso, é que o aumento das verbas para as empresas no novo quadro seja quase o dobro do anterior. Se for assim, como estes apoios são muito mais dispersos por todos os setores, poderá ser um plano equilibrado.

Mas, em relação ao PRR, não o português, mas todos, penso que não terá sido equacionado com a força suficiente apoios aos setores que estão com problemas. Isso devia ter sido uma parte importante, se calhar não do PRR, com as prioridades que tem, mas pelo menos de outros apoios que fossem criados com uma dimensão maior, que pudéssemos encaixar melhor, por exemplo, os apoios ao turismo. Mas pode e deverá ser feito de outra maneira, com outros instrumentos, como o Banco de Fomento e o PT 2020.


"Em relação ao PRR, não o português, mas todos, penso que não terá sido equacionado com a força suficiente apoios aos setores que estão com problemas"

Ainda é cedo para avaliar o trabalho do Banco de Fomento, mas o que espera deste organismo?

O Banco de Fomento reúne várias entidades que já tiveram um papel muito importante no combate a esta crise, no apoio às empresas e ao evitar que empresas viáveis fossem à falência. Ao unir estas entidades todas numa só poderá haver melhor coordenação. Com mais verbas comunitárias podemos ter também mais apoios ao financiamento. Quando cheguei ao Governo, em poucos meses colocámos a IFD a financiar a economia. Agora poderá ter um papel mais importante, não só no financiamento, mas também no relançamento de setores.

No plano das contas públicas, o Governo deverá conseguir chegar ao final do ano sem apresentar um Orçamento Retificativo?

Isso é muito difícil de prever. Tivemos factos novos, como a necessidade do confinamento no início do ano, seria normal um Orçamento Retificativo. Mas pode ser que a evolução da economia ao longo do ano venha a retirar essa necessidade. Provavelmente, só no final do primeiro semestre será claro se é necessário um retificativo.

O que é claro é que o primeiro trimestre de 2021 foi pior do que se previa quando se fez o Orçamento, portanto, o crescimento da economia este ano vai ficar abaixo do que era inicialmente previsto, principalmente por esse efeito do primeiro trimestre, e isso vai ter obviamente feitos nas receitas e teve um efeito também no aumento da despesa. Portanto, coloca um quadro em que é possível que haja um Orçamento Retificativo. Mas depende muito também da retoma com o desconfinamento, mais rápida ou mais lenta, e da própria evolução da pandemia.

Como pensa que deverá ser a recuperação da economia? No início, a maioria dos analistas e economistas apontavam para uma recuperação rápida, a chamada recessão em V, agora já se fala numa recuperação em J deitado ou K, ou seja, parte da economia a recuperar rapidamente enquanto outra parte continua a contrair. Qual é a sua opinião?

Ainda há muitos fatores de incerteza, nomeadamente, quanto à pandemia. Alguns países europeus, que já tinham conseguido baixar os números, estão outra vez a confinar. Há uma forte probabilidade que, já neste segundo trimestre, haja um crescimento face ao ano passado, mas é um crescimento que tem a ver com um efeito de base - o ano passado caiu 16% faça a 2019.

Este ano, o segundo trimestre vai, claramente, ficar abaixo de 2019, mas deverá ficar acima de 2020. No verão vai depender muito da pandemia, se estiver controlada logo no início, vai haver condições para uma retoma forte e que os dois últimos trimestres do ano sejam já de recuperação.

Em 2022, com os instrumentos europeus a entrar e com os investimentos a concretizarem-se, há todas as condições para haver uma retoma forte. Se vamos conseguir chegar a 2019 no final 2022, ou só em 2023, vai depender muito da evolução da pandemia e das circunstâncias económicas que isso vai causar. É possível e, nesse contexto, não é uma recuperação em V fechado, mas uma recuperação ainda bastante rápida, principalmente se compararmos com a anterior crise, em que só ao fim de sete a oito anos retomamos o PIB da crise anterior.

O ideal era uma recuperação num ano ou dois, mas foi uma queda muito abrupta da economia, se conseguirmos em dois ou três anos já será um resultado muito melhor do que na última crise.

Qual é a sua percepção sobre as implicações económicas da Operação Marquês. O facto de ter demorado sete anos a ser conhecida a decisão sobre a acusação e, entretanto, terem prescrito crimes, revela a morosidade da justiça e pode afastar investidores internacionais do país?

Não me parece que vá afastar investidores internacionais. Mas, de facto, é um caso em que não fica bem a justiça, é um caso demasiado prolongado e é um caso em que parece que não se conseguiu levar a tempo, a tribunal, muitas das questões para as quais, eventualmente, havia prova. Mesmo assim, há várias questões que vão a tribunal, ainda estão em recurso.

Esta é uma altura aliciante para estar na governação? Sabendo o que iríamos enfrentar, a atual crise, lamenta não ter continuado?

No período em que estive conseguimos implementar a política que tínhamos estudado, conseguimos ouvir as pessoas, lançar novos programas, vê-los a resultar, ver a transformação da economia portuguesa em algumas áreas muito forte e muito mais rápida até do que nós prevíamos, ver o investimento privado a retomar, ver as “start-ups” crescerem imenso e a aproveitarem muito bem os apoios, ver o turismo também a reagir. Foi um momento muito criativo e muito interessante e em que se fizeram reforma e se pôde ver o resultado dessas reformas.

Este é um momento muito mais difícil de governação, a crise pandémica muda a cada dia, as reações são postas em causa no mês seguinte, as previsões económicas mudam radicalmente e muitas para pior. Não invejo nada quem está agora no poder, mas admiro imenso a capacidade e o esforço de todos.

Admite regressar?

Admito continuar a ter participação política e cívica, através de opinião e participação. Participar, para mim, não está ligado a cargos e é isso que vou continuar a fazer, mais discretamente ou mais publicamente, depende do que surgir.

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