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Entrevista Renascença/Ecclesia

"Há muitos portugueses que não têm acesso à informação"

14 jan, 2024 - 09:30 • Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Agência Ecclesia)

O presidente da Associação de Imprensa de Inspiração Cristão alerta que "25% de Portugal não tem um órgão de informação jornalístico" e relaciona a crise da comunicação social com o crescimento dos populismos. "É fundamental o combate à iliteracia", defende Paulo Ribeiro, sustentando que "há formas de o Estado poder intervir no setor” sem pôr em causa a independência. O ministro da Cultura "pura e simplesmente" deixou que "as coisas rolassem”, lamenta.

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Entrevista a Paulo Ribeiro, da Associação de Imprensa de Inspiração Cristão
Ouça a entrevista a Paulo Ribeiro, presidente da Associação de Imprensa de Inspiração Cristão

O presidente da Associação de Imprensa de Inspiração Cristã (AIIC) está preocupado com o facto de o acesso à informação "estar condicionado”. “Há muitos portugueses que não têm acesso à informação”, diz Paulo Ribeiro, em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia.

Paulo Ribeiro considera que o que se está a passar no Grupo Global Media “é uma ponta do icebergue” e alerta para o facto de 25% do território nacional viver o chamado “deserto de notícias”.

"Neste momento, 25% do país não tem um órgão de informação jornalístico. Isto é muito grave. Os poderes públicos locais não são escrutinados, as populações não têm acesso a um meio de comunicação social”, lamenta.

Ainda sobre o caso Global Media, o presidente da AIIC afirma que “toda a situação é muito nebulosa” e defende que, “relativamente ao fundo [que controla o grupo], obviamente, é importante saber a sua origem”.

Paulo Ribeiro acusa o ministro da Cultura de não ter “feito nada em prol da comunicação social” e de “pura e simplesmente" ter deixado que "as coisas rolassem”.

"Há formas de o Estado poder intervir no setor”, afirma o responsável, que se mostra também preocupado com o fenómeno do populismo. "Há uma fatia da população que julga credível a informação que circula”, pelo que continua a ser “fundamental o papel de um jornalista". "Desaparecendo esta função de mediador, temos o resultado que temos noutros países”, alerta.

Paulo Ribeiro teme "a fatalidade" do fim da edição em papel da grande maioria das publicações e exorta “o Estado português, os agentes políticos, a decidir de uma vez por todas se querem ou não uma comunicação social plural e generalista em todo o território”.

"25% de Portugal não tem um órgão de informação jornalístico. Isto é grave"

No final de 2023, algumas publicações de inspiração cristã abandonaram a edição em papel, poderemos estar a caminho do fim da edição em papel. Isso resulta exclusivamente das dificuldades económicas ou encontra outros fatores?

Penso que o problema é complexo, mas as respostas são muito simples, e passo a explicar... Há um colega meu, diretor de um jornal nosso associado, que diz que nos últimos anos estamos a viver a tempestade perfeita. A tempestade perfeita para tudo o que de mau que podia acontecer ao ecossistema da comunicação social, nomeadamente a imprensa, concretamente. Porquê? Os ouvintes certamente perceberão aquilo que irei explicar.

O que suporta um jornal são os leitores, são as assinaturas, as vendas em banca e, fundamentalmente, a publicidade. O que aconteceu? A publicidade caiu drasticamente. E caiu drasticamente porque houve, nas últimas duas décadas, mais com assertividade, nos últimos dez anos um desvio do investimento publicitário para outros canais, nomeadamente ao nível do digital e dos grandes aglomerados de produção digital, como Google, Facebook, Instagram.

Houve, portanto, grande desvio da publicidade e houve, da parte do Estado, um desinvestimento na imprensa. Todos nós nos recordamos dos suplementos que os jornais tinham de publicidade obrigatória. Com o advento da digitalização, isso deixou de existir. Ou seja, foi outro rombo financeiro. A par disso, registou-se uma quebra nos hábitos de consumo de informação, que levou a que todos nós recorramos a um telemóvel, a um computador para ler informação.

E muitas vezes sem pagar... Essa não é também uma questão relevante?

Era aí que eu queria chegar. Antes, tínhamos de ir à banca comprar o jornal e agora temos uma forma diferente do acesso à informação. Os editores foram também muito responsáveis por colocarem gratuitamente a informação, que tem custos, é produzida por pessoas. Portanto, é como um fabricante de sapatos meter os sapatos livremente numa montra e as pessoas entrarem e levarem os sapatos consigosem pagar nada.

Isto pode parecer uma caricatura um pouco atrevida, mas, de facto, é o que acontece. As pessoas consomem a informação. Consomem a informação jornalística gratuitamente. Portanto, todo este ecossistema foi profundamente alterado. E isso está estudado. E deixo uma palavra de reconhecimento à Academia Portuguesa que tem feito, fundamentalmente nos últimos anos, um trabalho consistente de estudo das causas que levaram a este cenário que agora estamos a viver, que estamos a enfrentar com o maior dramatismo.

"É fundamental o combate à iliteracia"

Vê mesmo como uma fatalidade o fim da edição em papel?

Poderá ser, se não se inverter esta situação. Ainda estamos a tempo de a inverter parcialmente esse caminho, se houver - e é o que a AIIC tem vindo a defender há vários anos - uma política, do ponto de vista do Estado, de combate à iliteracia. Ou seja, se houver medidas que outras democracias avançadas, nomeadamente na geografia europeia, estão a implementar já há algum tempo com sucesso, que passam pelo incentivo ao consumo de informação jornalística produzida tanto em papel como através da via digital. Aí, o Estado tem um papel importante.

Penso que, como o senhor. Presidente da República disse, é necessário um pacto de regime. Ele já o defendia antes da pandemia e já teve iniciativas nesse sentido. O Estado português, os agentes políticos devem decidir de uma vez por todas se querem ou não querem uma comunicação social plural e generalista em todo o território nacional.

Qual é a sua sensação sobre a resposta a essa pergunta?

A minha sensação é a de que há um querer envergonhado. Ou seja, não há ousadia, não há assertividade. Nós somos recebidos pelos grupos parlamentares na Assembleia da República, que é onde se legisla, é onde os eleitos que representam todos os portugueses estão, e ouvimos medidas, palavras com muita simpatia, com exceção de um partido que também é simpático, mas que confere ao mercado a regulação.

Esse partido defende que deve ser o mercado a decidir se, de facto, as empresas devem morrer, se os jornais devem morrer. Essa é uma visão, mas a grande maioria dos partidos concorda que deve haver uma democracia plural, com órgãos jornalísticos saudáveis, que tenham jornalistas a trabalhar com independência em prol da verdade informativa. É isso que defendemos. Se é esse o caminho, vamos então para as medidas. Porque senão, continuamos aqui com um pescadinho no rabo da boca.

"Houve, da parte do Estado, um desinvestimento na imprensa"

Quais são, então, essas medidas?

Para mim e para nós, a AIIC, é fundamental o combate à iliteracia. É fundamental que a população perceba, e já muitas pessoas percebem, a importância que um órgão jornalístico tem no seu território.

Estamos neste momento com 25 por cento do país sem um órgão de informação jornalístico. E já estamos a alertar para esta situação há anos. Lançámos esta discussão e a Universidade da Beira Interior pegou neste problema e fez um estudo sobre o deserto de notícias, a exemplo do que já foi feito, por exemplo, nos Estados Unidos e no Brasil. Verificou-se que 25% de Portugal não tem um órgão de informação jornalístico. Isto é grave.

Os poderes públicos locais não são escrutinados, as populações não têm acesso a um órgão, a um meio de comunicação social jornalístico ao qual possam recorrer para que as suas vozes sejam ouvidas, conforme os nossos associados, a grande maioria dos nossos associados faz no terreno. Tem de ser com medidas que defendam esta comunicação social, para que haja uma coesão. No fim de contas, o acesso à informação está condicionado. Há muitos portugueses que não têm acesso à informação.

Estávamos a falar do setor da imprensa local e cristã, que vive momentos de dificuldade, mas, no âmbito nacional ,neste momento temos um grande grupo, a Global Média, de que falou ainda há pouco, a atravessar uma profunda crise. A que é que se deve esta situação?

Esta crise andou camuflada, digamos, por novos acionistas a entrar e a sair, a pôr dinheiro e a sair... A situação é muito nebulosa relativamente ao fundo, à origem dos fundos. Obviamente, é importante saber a sua origem. Mas já se sabia há muito tempo, e as contas estão no portal da transparência da ERC, que o grupo Global Média, o Diário Notícias, já estava com dificuldades financeiras. há muito tempo. E a TSF também.

Portanto, não é surpresa, para os que acompanham este setor, o que está a acontecer.

Nós temos dois grupos económicos, fundamentalmente, que assumem prejuízos no final do ano, mas como sendo algo pensado.Os acionistas consideram que mesmo assim vale a pena. Nós temos o Público, da Sonae, que nunca deu lucro, mas onde o acionista mete dinheiro, mas para um projeto digno de jornalismo. O editor considera que é importante para o seu portfólio de empresa ter um título com credibilidade, mesmo que dê prejuízo e mete dinheiro. É uma forma de sustentar a comunicação social. É uma forma, mas nem todos os títulos podem ter essa garantia, porque é complicado.

Daí que nós defendamos que o legislador deva conceder - se considera que a comunicação social jornalística é importante para a salvaguarda da democracia portuguesa e para a integridade e coesão territorial - medidas que fomentem o surgimento de novos operadores no mercado.

"O ministro da Cultura não fez nada em prol da comunicação social, pura e simplesmente deixou que as coisas rolassem"

Há uma concentração demasiada em determinados grupos ou em poucos grupos?

É o risco que corremos. Por exemplo, o ministro da Cultura, que não fez nada em prol da comunicação social, não fez nada, pura e simplesmente deixou que as coisas rolassem. Porquê? Porque quando houve a questão da publicidade institucional, a compra da publicidade institucional antecipada na pandemia, aquilo foi mal gerido do ponto de vista político por outros partido, que consideraram que a comunicação social foi comprada. Existe sempre este aproveitamento politico e levanta-se sempre este fantasma que é profundamente falso. Nós participámos no processo e não houve nenhuma comunicação social que fosse comprada. Foi publicidade que foi alocada e as associações distribuíram pelos órgãos de comunicação social. Portanto, a publicidade da Covid, a publicidade dos fogos florestais....

Mas criou-se uma desconfiança em relação à intervenção do Estado?

Cria-se sempre uma desconfiança em Portugal e isso é um motivo para nada se fazer. Isso é um motivo para questionar que a RTP, a Lusa, a Antena 1 sejam suportadas pelo dinheiro dos contribuintes. Alguém, com seriedade, pode dizer que os jornalistas que trabalham nesses órgãos são condicionados pelo poder político hoje? Não estou a falar, a seguir ao 25 de Abril, não estou a falar nos anos 80, onde havia telefonemas dos secretários de Estado, ou dos ministros para os diretores de Informação. Atualmente, alguém faz isso?

Eu conheço, nós conhecemos camaradas nossas que trabalham nesses órgãos, que fazem um trabalho e é audível e é visível o trabalho que fazem. Portanto, há formas de o Estado poder, como acontece noutras democracias mais avançadas ou mais consolidadas do que a nossa, na Europa, inverter a situação.

"O que nos mostra esta crise na Global Media é a ponta do icebergue"

Voltando à Global Media: além dos postos de trabalho que estão em risco, há importantes alertas a sublinhar sobre a necessidade de uma informação plural. Há riscos, do ponto de vista da própria democracia, da manutenção da democracia, do escrutínio democrático, com este tipo de situação?

Acho que o que nos mostra esta crise na Global Media é a ponta do icebergue, porque nós já estamos com 25 por cento do território nacional sem escrutínio jornalístico. Passou-se de uma situação nos anos 90-2000, em que todo o território nacional tinha mais jornalistas do que profissionais de comunicação nos municípios, para um paradigma totalmente oposto. Temos municípios com uma máquina de propaganda nos seus territórios - com técnicos, com investimento pesado, a passar propaganda, legítima, não ponho isso em causa, que é feita pelos respetivos poderes autárquicos - e não temos, em contraponto, jornalistas naqueles territórios, para fazer uma avaliação do trabalho que é feito de uma forma isenta, imparcial, de uma forma de acordo com o que está consagrado no código deontológico dos jornalistas e com o estatuto.

E agora há o risco de desaparecer o último grande diário do Norte...

Eu trabalhei para o Jornal de Notícias durante 17 anos e trabalhei nove anos para o Diário de Notícias, como colaborador. Nos dois, na região onde vivo sempre senti liberdade em reportar aquilo que se passava. Mas até em termos nacionais e internacionais, quando se proporcionava, portanto tenho o maior respeito e não tenho dúvidas: se estes dois meios desaparecerem, Portugal fica muito mais pobre do ponto de vista do escrutínio democrático. Não tenho a mínima dúvida.

Isto está a acontecer num ano que vai ter vários atos eleitorais...

Nos 50 anos do 25 de Abril.

E nos 50 anos do 25 de Abril. É preocupante este definhamento da imprensa e da comunicação social em geral?

É preocupante. Neste momento, tenho pena, porque há uma fatia da população que não considera que seja importante, porque como tem acesso a informação no seu telemóvel, julga que a informação que circula é informação credível. Muitas vezes, nós sabemos que não é e estamos a cultivar um povo de uma forma cada vez mais... digamos que, com tanta informação as pessoas nunca souberam tão pouco. Esta é a minha análise. Não é por acaso que os populismos estão a surgir e só...

Mas também porque se perdeu esta ideia de mediação...

Exatamente.

O acesso é imediato, torna logo tudo verdade… Não há triagem, não é?

É. E esse é o papel fundamental de um jornalista, é essa obrigação legal e ética que um jornalista tem. Desaparecendo esta função de mediador, temos o resultado que temos noutros países.

"Com tanta informação as pessoas nunca souberam tão pouco"

Voltando à realidade da imprensa cristã e da imprensa regional. Do ponto de vista do leitor, a internet democratizou o acesso. Para os responsáveis pelo setor, isso significa também novas dificuldades?

De um modo geral, os meios de comunicação social, a imprensa regional e os nossos associados têm procurado fazer a transição para o digital e temos produtos muito competitivos, com muita qualidade, que não ficam atrás dos de nenhum outro país mais avançado. A questão aqui é, de facto, a sustentabilidade. O digital ainda não representa uma fonte de receita como o produto em papel. Nós costumamos dizer que ainda é o papel que, no fim do dia, paga as contas. É esta a realidade. Nós queremos investir, queremos que haja mais publicidade no digital, mas ainda é a publicidade em papel que vai suportando, na medida das possibilidades, os projetos.

"Não se pode só pensar no jornalismo em Lisboa e no Porto"

Numa reflexão mais teórica, o Papa vai apresentar, para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, uma reflexão sobre a inteligência artificial. Quando falamos disso, falamos também em desafios, da possibilidade de se promover sistemas de desinformação, de aumentar ainda mais o isolamento da população. É um problema, tudo isto?

É um problema fundamental, porque a inteligência artificial vai ser uma ferramenta. Já está a ser uma ferramenta utilizada. A questão, aqui, são os critérios éticos, deontológicos, que estão subjacentes. Nada substitui o contacto pessoal, nada substitui o jornalista no terreno, junto da sua comunidade, junto do seu território. Não há inteligência artificial que substitua este trabalho de proximidade, que nós temos de ter, que a AIIC tem defendido. Deve haver um conjunto de ferramentas que possam permitir que estes territórios, todo o território nacional, tenha jornalistas e jornalismo.

Não se pode só pensar no jornalismo em Lisboa e no Porto. Aliás, o jornalismo em Lisboa e no Porto já está ameaçado, estamos no fim da linha desde há 10 anos a esta parte. Os responsáveis políticos, na verdade, olharam para o lado e assobiaram. "Não se mexe na comunicação social porque depois podemos ser acusados disto”...

Não tem havido ousadia, não tem havido responsabilidade, porque tem de haver responsabilidade de quem nos governa nesta área, também. Tem de ouvir, saber o que é que se passa nos outros países - porque este não é um problema só de Portugal, é um problema à escala global - que procuraram soluções, soluções consensuais, o tal pacto de regime de que o Presidente da República tem vindo a defender.

"A Igreja comunica a várias vozes. Por um lado, é bom, mas, por outro lado, não há, por vezes, uma coerência comunicativa"

Que ideia tem o presidente da Associação de Inspiração Cristã da forma como a Igreja comunica?

A Igreja comunica a várias vozes. Por um lado, é bom, mas, por outro lado, não há, por vezes, uma coerência comunicativa, se posso usar esta expressão. A AIIC reúne cerca de 180 meios de todo o país e, muitas vezes - tenho de o dizer, lamentavelmente -, somos esquecidos quando se trata de analisar, de dar contributos para o setor, que é a formacomo podemos colaborar mais. Estamos dispostos a isto, a colaborar mais com a Igreja, construir a Igreja, mas, muitas vezes - certamente não é por maldade, não é nesse sentido -, somos esquecidos. Mas cá estamos, temos esta resiliência e o caminho faz-se caminhando. Temos esperança de que as palavras do Papa Francisco se traduzam no terreno com uma maior assertividade, que é isso que também defendemos.

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