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Perfil

Nuno Melo, um clássico há muito estacionado no CDS

18 fev, 2022 - 10:30 • Fábio Monteiro

Nuno Melo é um centrista clássico: truculento no estilo, loquaz nas ideias. “É de direita, não tem medo de ser de direita e de confrontar os espíritos”, diz João Rebelo. Este sábado, irá formalizar a candidatura à liderança CDS. Pela frente, o homem de 55 anos, nascido na vila de Joane, Vila Nova de Famalicão, terá o maior desafio da sua vida política

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Durante muitos anos, na garagem da Assembleia da República, houve um Triumph Spitfire MKIII, um clássico de 1967, sempre estacionado no mesmo sítio. O carro não costumava circular e era usado como uma espécie de cacifo com rodas. Parecia estar a marcar lugar. O proprietário do veículo era conhecido de todos os frequentadores assíduos do Parlamento: Nuno Melo.

Colecionador ávido de carros antigos, agricultor nos tempos livres e “doido” por caça, o eurodeputado e antigo líder parlamentar do CDS é um centrista clássico: truculento no estilo, loquaz nas ideias. E há pelo menos uma década que o seu nome é badalado como potencial líder do partido.

Quando Paulo Portas voou para as paragens do comentário político internacional, no final de 2015, Nuno Melo foi logo um dos colocados na “lista de sucessores”, pois tratava-se de “um dos quadros com mais destaque”, lembra João Rebelo, ex-deputado do CDS, à Renascença. Foi, todavia, Assunção Cristas quem tomou o leme do partido e herdou uma bancada com 18 deputados. Depois, em 2020, sucedeu-lhe Francisco Rodrigues dos Santos – então com apenas cinco representantes no Parlamento.

Os sinais de desaire para o CDS pairavam no ar: a eleição de André Ventura, pelo Chega, e de João Cotrim de Figueiredo, pela Iniciativa Liberal, em 2019, mostravam uma mudança de paradigma à direita. No final do ano passado, Nuno Melo ainda tentou convocar um congresso antes das eleições legislativas antecipadas devido ao chumbo do Orçamento do Estado para 2022. Mas Francisco Rodrigues dos Santos (e a direção do partido) recusou.

Tendo em conta as sondagens, temia-se que aquele que já fora o “partido do táxi”, entre 1987 e 1991, passasse a andar de trotinete. Mas nem isso. Pela primeira vez desde 1974, o CDS não elegeu nenhum deputado para a Assembleia da República, deixou de ter representação parlamentar.

Estivesse Nuno Melo no comando, tanto Cecília Meireles como João Rebelo acreditam que o resultado das legislativas teria sido diferente. O que lá vai lá vai, contudo. A conjuntura agora é outra.

Este sábado, Nuno Melo formaliza a candidatura à liderança do partido. Pela frente, o homem de 55 anos, nascido na vila de Joane, Vila Nova de Famalicão, terá o maior desafio da sua vida política. E nas mãos a sobrevivência do partido. Finalmente, chegou o momento de se fazer à estrada.

Político com sangue na guelra

Há mais de duas décadas que Nuno Melo é conhecido na praça pública. O centrista pisou a Assembleia da República pela primeira vez em 1999, eleito pelo círculo de Braga, e por lá continuou até se mudar para Bruxelas, no papel de eurodeputado, dez anos mais tarde.

Graças a estas experiências, tem hoje “uma bagagem e uma preparação que não é muito vista no panorama português”, defende João Rebelo. Mais: é “afável”, tem não só uma “boa imagem junto da opinião pública”, mas também em “partidos próximos da direita como o Chega e a Iniciativa Liberal”. Ou seja, numa futura ida às urnas, poderá roubar votos.

Quem o conhece, garante que tem um bom sentido de humor, transpira confiança e chega a ser obsessivo na argumentação. “É o feitio dele. Se estamos a ter uma discussão de ideias, não desiste da dele: continua, continua, insiste. E acho que o CDS precisa disso agora”, diz Cecília Meireles, ex-deputada do CDS e amiga do centrista há mais de 20 anos. Na mesma linha, João Rebelo recorda-se de ver Nuno Melo em campanha, a ouvir as habituais “bocas” nas ruas. Em vez de fazer ouvidos moucos, “confrontava as pessoas e perguntava: ‘porque está a dizer isso?’ Gostava muito de perguntar e discutir ideias”.

Licenciado em Direito pela Universidade Portucalense, o centrista é um político em currículo, mas, no estilo, é um advogado “dos pés à cabeça”, pois demonstra “uma mistura de tenacidade com capacidade de oratória e sentido de humor”, diz Meireles. Aliás, a postura aguerrida, por vezes até desbocada, já lhe granjeou, no passado, muitas antipatias à esquerda. Mas isso nunca parece tê-lo incomodado ou toldado a intervenção.

Nuno Melo seguiu em frente depois de descrever Greta Thunberg como uma “adolescente chorosa”, fez o mesmo após dizer que o Vox, partido de extrema-direita espanhol, era o equivalente ao “Aliança para o PSD” ou quando acusou o Bloco de Esquerda de ser a destruição “dos valores éticos e morais que devem estruturar uma sociedade decente”. Também não recuou quando defendeu, em março de 2019, algumas limitações à imigração na União Europeia: “Precisamos de pessoas, mas não de quaisquer pessoas; têm obrigação de respeitar as nossas leis, tradições e cultura.”

No ringue

“Suspeita” por apreciar o formato, Cecília Meireles aponta a Comissão de Inquérito à gestão e nacionalização do Banco Português de Negócios (BPN) como o momento que melhor demostrou os dotes políticos de Nuno Melo. “Foi uma fonte de inspiração”, afirma.

Com eficácia e “tenacidade”, o centrista expôs com eficácia as fragilidades da supervisão bancária, à data liderada por Vítor Constâncio. João Rebelo vai mesmo ao ponto de afirmar que a comissão ao BPN foi “percursora de todas as que vieram depois”, criou um registo com peso e relevância pública.

Nuno Melo prospera no ringue do debate. João Rebelo lembra que no Parlamento Europeu, enquanto eurodeputado, o centrista destacou-se também nas Comissões de Inquérito aos voos secretos da CIA. “Há debates épicos dele com a Ana Gomes. Ele tem essas coisas: é de direita, não tem medo de ser de direita e de confrontar os espíritos”, aponta.

De bólide e coragem na bagagem

Tentar guinar o CDS, que nas eleições de 30 de janeiro se "despistou", e voltar a colocá-lo no carreiro em direção à Assembleia da República não será tarefa fácil. Com uma legislatura de quatro anos garantida, devido à maioria absoluta do PS, a liderança de Nuno Melo tem tudo para ser uma travessia no deserto.

É por isso que Diogo Feio, antigo deputado e presidente do grupo parlamentar do CDS, diz ver na candidatura de Nuno Melo “um ato de grande generosidade” e de “grande coragem”.

O centrista afirma que a liderança do partido está sempre dependente de “atos de vontade”. Uma das incumbências de Nuno Melo será “virar a página a um caminho, a que chamaria de tentativa de purificação do partido, que foi sucedendo e que levou a este resultado eleitoral dramático”, aponta.

Cecília Meireles também deposita as suas esperanças na coragem do eurodeputado. “O CDS está numa posição muito difícil e acho que é inédita. Como esta, nunca teve. Precisa de alguém que tenha tenacidade e não desista. E acho que o Nuno Melo tem essa característica indubitavelmente”, diz.

Segundo a ex-deputada (também apontada várias vezes à liderança do CDS), Melo vai precisar, nos próximos quatro anos, de ter muita “força interior”: “ter ânimo e dar ânimo às pessoas, um trabalho de inspiração”. Isto, claro, na esperança de que em 2026 o CDS volte a conseguir um lugar (e estacionamento) na Assembleia da República.

A missão é “quase impossível”, repetem os centristas ouvidos pela Renascença. Trata-se de uma tarefa digna de um famoso agente dos serviços secretos. Há milhares de quilómetros para trilhar. Os bólides, pelo menos, Nuno Melo já os tem.

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