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Da geração de abril ao primeiro voto de um bengalês. O retrato do dia das presidenciais

24 jan, 2021 - 19:19 • Beatriz Lopes

De todas as idades, de origens diversas. Foram muitos os que preencheram filas para votar. Contestação por episódios repetidos, felicidade pela primeira oportunidade de escolher, abril recordado. O mosaico de um dia de presidenciais em confinamento.

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Acordar cedo para votar em Algueirão Mem-Martins, em Sintra, já é um hábito, não fosse esta a maior freguesia do país, mas em plena pandemia, “defender a liberdade e a democracia em segurança” impôs que fossem muitos aqueles que chegassem meia hora antes da abertura das assembleias de voto.

Às 8h30, mais de 200 pessoas já rodeavam o Agrupamento de Escolas Ferreira de Castro. Maria Roxo, na casa dos 70 anos, foi a primeira a chegar porque não quer “deixar a obra em mãos alheias”, embora não tenha dúvidas de quem é “o melhor presidente para governar o país e a cidadania”.

“Vai ganhar o Marcelo. É um homem íntegro e de afetos, e o que o país precisa neste momento é de afetos. Ai dele que não ganhe! Se falhou nesta pandemia? Criticar é fácil, mas de certeza que ninguém queria estar na pele dele”, diz.

Depois de passar por uma Guerra Civil e uma pandemia de gripe A, Maria diz não ter medo do atual contexto, porque “o pânico é o maior obstáculo para que se atinja a imunidade”, mas diz ficar inquieta quando pensa nos mais velhos que “vão de manhã ao supermercado buscar maçãs e à tarde buscar as cebolas”.

Hoje festeja também pela mãe, que faz parte da geração que estava na meia-idade na revolução do 25 de abril e que muitas vezes se viu na impossibilidade de votar: “Há anos que dizia para irem buscar os votos aos lares e este ano fizeram-no. A minha mãe voltou a votar com 92 anos”.

“Mas já não é a mesma coisa”, interrompe Divone Cerejo, de 80 anos que recorda o entusiasmo de votar em 1975.

“Era a primeira vez que as mulheres iam votar e eu estava numa mesa de voto. Eram filas imensas e recordo-me bem de as pessoas estarem felizes por votar”.

Nas eleições deste ano, Divone pede apenas “estabilidade para o futuro”, motivo que justifica a decisão que está prestes a tomar.

“O voto é secreto, mas eu digo já que voto no Marcelo. Na última vez não votei nele, votei no Sampaio da Nóvoa, mas precisamos agora de estabilidade. E o Marcelo tem feito o melhor possível”, defende.

É sobretudo por caras mais velhas que fica marcada a manhã eleitoral em Algueirão Mem-Martins, onde embora as filas fossem longas, levando alguns eleitores a ponderar desistir, foram respeitadas todas as regras de segurança sanitárias para que fosse possível votar em 12 mesas de voto.

Seguimos caminho para o coração de Lisboa: Mouraria. À porta do Centro Comercial há uma indignação generalizada que dá as boas vindas a quem chega.

Deolinda dos Santos, de 78 anos, desiste de esperar porque “não há organização, as filas são longas e para quem tem artroses, esperar numa cadeira não basta”, mas há também quem já tenha conseguido votar “depois de muita contestação”, conta Anabela Sequeira.

“Vim com o meu pai votar, porque, tendo em conta que é cego, precisa de acompanhamento. O que me espanta é que um homem que tanto deu ao país nas forças armadas, tenha ainda hoje dificuldade em votar porque não sabe ler Braille e nem sequer me deixam ir votar na mesma mesa a acompanhá-lo”, contesta.

Anabela veio votar porque “o país também precisa de alguém que dê voz à revolta” e “essa revolta tem um nome: André Ventura”, grita.

“Explique-me o que sentiria se tivesse de cuidar de um pai, invisual desde os 20 anos, sem um braço, que deu tanto à pátria e não tem direito a uma casa das forças armadas no país que, no entanto, dá casas a pessoas ilegais que chegam de Marrocos”, acrescenta.

Mas na Mouraria, o bairro histórico mais multicultural de Lisboa, há também quem só agora se sinta português e tenha a oportunidade de lançar as primeiras raízes da democracia. É o caso de Md Kamal Hossain, que apesar de estar sozinho em Portugal há nove anos, só agora conseguiu ter nacionalidade portuguesa.

“Demorou, mas estou muito feliz por poder votar num país tão pacífico que não esquece os imigrantes, também por isso foi fácil adaptar-me. É a primeira vez que voto e fico contente porque sinto-me seguro, algo que não sentia no Bangladesh. As eleições lá são muito perigosas e sempre marcadas por episódios de violência. Gosto da forma como se pratica política em Portugal e no resto da Europa”, diz.

Com a loja que gere de portas fechadas, Hossain tem saído de casa “só em situações de emergência”. Entre risos, e embora saiba que o voto é secreto, não esconde o favoritismo.

“O atual presidente e este Governo têm-nos ajudado bastante. O Marcelo é muito prestável e se quer que lhe diga não mudaria nada nas atuais políticas de imigração”, refere.

Na zona da Mouraria, a indignação pelas longas filas de espera estendeu-se pelas ruas dos Anjos e pelo Intendente, onde o distanciamento social nem sempre se cumpriu e as desistências já não se contavam pelos dedos.

Entre os desabafos em cada esquina, há quem preveja um final de noite “com uma inédita abstenção eleitoral” ou quem argumente que “antes do voto está a saúde”.

O cenário não é melhor na zona da Amadora onde nas ruas as filas para os supermercados quase são uma continuidade da fila para votar na Escola Pedro d’Orey da Cunha. No entanto, funcionários a dar indicações não faltam.

Cruzamo-nos com Inês Reis, de 18 anos, que vota pela primeira vez. Está feliz por ver ao ser redor muitos jovens “cada vez mais interessados pela política” e por ter hoje uma cara no boletim de voto que defende as suas ideologias.

“Vou votar Marisa Matias. É importante que haja mulheres no Governo para nos defenderem, porque infelizmente as leis foram feitas de homens para homens. Além disso, nenhum outro candidato deu tanta importância às alterações climáticas e a causas que sejam feministas, que não tolerem o machismo, a xenofobia e o racismo”, assinala.

A poucos metros de Inês encontramos Zaula Almeida, de 42 anos, que acredita que “o carisma vai vencer”.

“O Marcelo Rebelo de Sousa é o meu ídolo. Nunca imaginei ter um presidente em que sentisse que é possível chegar perto, tocar, desabafar. Um presidente que chega a todas as faixas etárias e a todas as religiões. Que outro presidente se lembraria da nossa comunidade? De todas as comunidades de países de língua portuguesa?” questiona.

Mas se há locais de voto onde o distanciamento não foi possível, outros surpreenderam pela positiva, depois de terem sido notórias as longas filas no voto antecipado. Uma semana depois, a Renascença voltou à Reitoria da Universidade de Lisboa, onde já não se assiste a um "staff" confuso espalhado pelo relvado e onde o tempo de espera para votar, não vai além dos 15 minutos.

Os receios hoje são outros que o diga Vera Fonseca que considera que “qualquer extrema, direita ou esquerda, é perigosa” ou Elisa Costa que recusa “falar no coiso”. Mas há também quem fique preocupado com “os muitos portugueses que hoje ficam em casa” e critica que não haja “soluções para evitar uma expectável abstenção”.

Marisa Roque, engenheira informática, lamenta que pessoas em isolamento tenham ficado impedidas de votar.

“Conheço muitas pessoas que, entretanto, testaram positivo, e tenho pena que mesmo com movimentos e petições, não tenha sido possível arranjar uma alternativa. Nesta altura da pandemia, em que toda a gente pensou mais na tecnologia, fica aqui uma lição para pensarmos no voto eletrónico. Eu como engenheira informática confio plenamente nesses sistemas”, desabafa.
E se outrora neste dia eleitoral há quem abdique de votar, Marisa preferiu trazer já o futuro ao colo. Porque “ a democracia semeia-se desde cedo”.
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