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Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza

Português com rendimento médio seria pobre em 11 países da UE

17 out, 2023 - 08:00 • Diogo Camilo

Uma em cada três famílias vive com menos de 10 mil euros por ano e, sem pensões ou subsídios, quase 4,5 milhões de portugueses estariam em situação de pobreza. Conheça o retrato de Portugal e da União Europeia, no âmbito do Dia Internacional para Erradicação da Pobreza.

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Quase 1,7 milhões de portugueses encontram-se em risco de pobreza e uma em cada três famílias vive com menos de 10 mil euros por ano. Sem apoios sociais, como pensões de velhice ou subsídios de desemprego ou invalidez, quase 4,4 milhões de portugueses viveriam em dificuldades.

De acordo com o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (ICOR), o número de pessoas em situação de pobreza em Portugal em 2021 até recuou dois pontos percentuais em relação ao ano anterior (de 18,4% para 16,4%), mas continua abaixo da taxa de risco registada pré-pandemia, em 2019.

Em Portugal, o valor abaixo do qual alguém é considerado pobre situava-se, em 2021, nos 6.608€ anuais de rendimento líquido, ou 551 euros por mês. Este indicador de limiar de pobreza é fixado em 60% do rendimento mediano líquido disponível, que é de 11.014 € - ou 918 euros mensais -, e até desceu em relação ao ano anterior.

Os dados da Eurostat analisados pela Renascença a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza mostram que um português com este rendimento líquido mediano de 918 euros estaria em risco de pobreza em 11 países da União Europeia, enquanto o limiar de pobreza em Portugal, que equivale aos 551 euros mensais, é apenas superior ao rendimento médio de dois países europeus - Roménia e Bulgária.

Sem ajudas do Estado, quase 4,5 milhões estariam em risco de pobreza

O relatório do ICOR indica que foi entre os mais velhos, com 65 anos ou mais, e entre os mais jovens (com menos de 18 anos), que a taxa de risco de pobreza diminuiu com maior expressão, mas que as faixas etárias continuam a ser as mais vulneráveis.

No que toca a idosos, a percentagem situa-se nos 17%, que se traduz em mais de 400 mil pessoas. Sem apoios do Estado, como a reforma ou pensões de sobrevivência, subsídios de desemprego, subsídios à família ou subsídios de doença e de invalidez, a taxa de risco de pobreza disparava para os 84% - mais de 2 milhões de pessoas.

No total, sem transferências sociais, cerca de 4,4 milhões de portugueses ficariam em dificuldades económicas (42,5% da população), ou seja, viveriam com menos de 551 euros por mês.

E, apesar do risco de pobreza ter diminuído em relação ao ano anterior, registou-se um aumento em famílias compostas por dois adultos e duas crianças: quase 13% vivem em dificuldades.

Em 2021, de acordo com números do INE e Pordata acerca das declarações de IRS entregues pelos agregados, uma em cada três famílias (36%) viviam, no máximo, com 10 mil euros brutos anuais - ou seja, 833 euros por mês - e mais de metade das famílias (53%) viviam com menos de 13 mil euros por ano - ou 1.125 euros brutos por mês.

Por regiões, o risco de pobreza continua a ser mais elevado nas regiões autónomas. Em 2021, a taxa diminuiu nas regiões Norte, Centro, Área Metropolitana de Lisboa (AML) e Alentejo e aumentou no Algarve, nos Açores e na Região Autónoma da Madeira. Embora na AML o risco de pobreza seja muito inferior ao valor nacional, o Algarve e as regiões autónomas apresentam valores superiores ao valor nacional, acima dos 20%.

A 27 de novembro, o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgará os dados do ICOR de 2023, com os números mais recentes de risco de pobreza no país.

Rendimento médio português fica abaixo do limiar de pobreza de 11 países

Segundo o Eurostat, a taxa de risco de pobreza em Portugal é o segundo valor mais baixo desde que há registo e ficou abaixo da média da União Europeia, de 16,5%, mas isso não quer dizer necessariamente que no bloco europeu haja mais problemas.

Isto porque o limiar de pobreza na UE, o valor a partir do qual alguém é considerado pobre, é quase o dobro que em Portugal.

Em 2020, era considerado pobre em Portugal quem recebeu menos de 6.653€ ao longo do ano. Em 2021, o valor desceu para os 6.608€, ou seja, de 555 euros líquidos mensais para 551 euros. Na média europeia, o mesmo valor subiu de 918 para 954 euros.

Um português com o rendimento médio de 11.014 € líquidos por ano - ou 918 euros por mês -, seria considerado pobre em 11 países da União Europeia, que fazem subir o limiar da pobreza. São eles Luxemburgo, onde o limiar da pobreza está nos 2.265 euros por mês, Dinamarca, Países Baixos, Irlanda, Áustria, Bélgica, Suécia, Finlândia, Alemanha, França e Itália.

Existem até casos de países como o Luxemburgo e a Itália, que têm uma taxa de risco de pobreza acima da de Portugal, mas onde um português com salário médio seria considerado pobre naquele país.

Em Espanha, por exemplo, a taxa de risco de pobreza é maior que a de Portugal (20,4%), mas o limiar de pobreza situa-se quase 300 euros mensais acima do português.

Visto de outro prisma, o limiar de pobreza em Portugal, que equivale a 551 euros mensais, é apenas superior ao rendimento médio de dois países europeus - Roménia e Bulgária.

E, apesar de estar abaixo da média europeia, Portugal tem a 12.ª maior taxa de risco de pobreza, o que o coloca na “pior metade” do bloco europeu. No que toca ao limiar de pobreza, o valor a partir do qual uma pessoa é considerada pobre, Portugal também está na pior metade: só nove Estados-membros têm uma barreira mais baixa.

Nos últimos 10 anos, Portugal foi dos que viu aumentar menos o limiar de pobreza (apenas 17%) e foi ultrapassado por dois países: Estónia e República Checa, onde o patamar de pobreza é superior a sete mil euros líquidos anuais.

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