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Bolsa de Empregabilidade recebeu 4.500 pessoas

04 mar, 2023 - 22:27 • Ana Carrilho

O número de candidatos que passou na sexta-feira pela Bolsa de Empregabilidade, na Sala Tejo do Altice Arena, superou as melhores expetativas da organização, da responsabilidade da Associação Fórum Turismo. Estudantes, desempregados, pessoas a querer mudar de emprego; portugueses e uma larga maioria de estrangeiros deixaram currículos em cerca de uma centena de empresas ligadas ao turismo.

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Há mais de seis anos que a Bolsa de Empregabilidade se dedica ao recrutamento de profissionais para o setor do turismo, com diversas iniciativas, mas especialmente em feiras e eventos em que empresas e candidatos se encontram.

O evento costuma ocorrer num dos dias da BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa - e dentro do espaço da FIL do Parque das Nações. Mas com uma adesão cada vez maior de empresas e candidatos a emprego, a Associação Fórum Turismo, liderada por António Miguel Marto, decidiu atravessar a rua e instalar-se na Sala Tejo do Altice Arena. Sala que continuou a ser pequena.

Os quase 4.500 participantes ultrapassaram largamente as expetativas da organização que contava com cerca de 3.500 pessoas. As filas na rua, com dezenas de candidatos à espera de entrar na sala foram uma constante desde a abertura, às 11 da manhã até ao encerramento, depois das 19h.

António Marto não esconde a satisfação pela adesão e espera que, no fim, o balanço seja efetivamente positivo para todos. Ou seja: que quem está interessado em ter um emprego na área do turismo o consiga e quem quer recrutar, encontre os profissionais que precisa.

Uma larga maioria de candidatos estrangeiros

Como é costume, os alunos das escolas do Turismo de Portugal passam pela BTL no último dia dedicado aos profissionais e que habitualmente coincide com a Bolsa de Empregabilidade. Este ano a regra manteve-se e várias centenas passaram pela Sala Tejo, em grande parte dos casos, ainda para ver o ambiente ou para se candidatar a um estágio.

O tipo de procura por parte das empresas, por vezes, pode determinar a escolha de opções no último ano do curso. Era a intenção de Sara, Carla e Isabel, que vieram de Beja e que encontrámos na (longa) fila de espera para aceder ao espaço ou de Nuno que, com outro colega da Escola profissional de Artes e Desporto, de Lisboa, já na sala, elogiavam a organização. Apesar de notarem que estava muito cheia.

Mas a grande maioria dos candidatos que se apresentou na Bolsa de Empregabilidade era estrangeira. Muito especialmente, do Paquistão, India e Bangladesh. A dificuldade de comunicação é grande porque estes imigrantes não falam português e muito frequentemente, nem inglês. Não admira, pois, que se organizem em grupos em que pelo menos um dos elementos se consegue fazer entender minimamente em inglês e que além de tratar da sua situação, pode ajudar os colegas.

Era o que acontecia com um grupo de seis homens, todos oriundos do Bangladesh que se encontravam na fila a meio da tarde. Apenas um falava inglês e servia de interprete para todos os outros.

É também o que está há mais tempo em Portugal (cerca de um ano), já trabalhou num restaurante, mas agora está desempregado. Vive em Lisboa e aproveitou a Feira para tentar a sua sorte. Tal como os compatriotas, vem cheio de papéis, os currículos para deixar nas empresas que estão a recrutar e as provas de que tem a sua situação regularizada no país. A restauração é uma área que conhece bem, já tinha experiência de trabalho no seu país, mas percebemos que outros elementos do grupo não têm qualquer formação para o turismo e além de nem sequer falarem inglês, têm qualificações muito baixas.

A língua é uma barreira para aceder a alguns empregos

Na Sala Tejo, em circulação ou junto dos stands das empresas, repete-se o cenário de grupos de homens asiáticos. “Mais de 85% dos candidatos que aqui passaram são estrangeiros, muitos do Paquistão e Bangladesh. Para o atendimento ao cliente, é um obstáculo porque não falam português e frequentemente, o inglês é mau. Têm perfis mais para a cozinha, copa ou house keeping (serviço de limpeza)”, diz à Renascença Sara, uma das representantes do grupo espanhol N10Hotels, com duas unidades recentes em Lisboa. Há dez vagas para cozinheiros, empregados de mesa, para a receção e spa.

O Grupo Onyria precisa de duas a três dezenas de trabalhadores operacionais para o hotel de Cascais e o restaurante no Algarve. “Temos mesmo de recrutar até ao fim de abril”, diz Núria, uma das representantes do grupo hoteleiro na Bolsa de Empregabilidade, admitindo que estava “a correr bem” e já tinham recebido algumas candidaturas que “encaixam perfeitamente no perfil que estamos à procura”. Ou seja, “gente nova, com disponibilidade e vontade de aprender. Há muitos jovens à procura de estágios e outros, mais velhos, também não têm formação.”

Helena tem formação, tem experiência na hotelaria e restauração, mas com a pandemia e o confinamento, perdeu o emprego. Foi obrigada a mudar de área e de profissão. Sem contrato, trabalha a recibos verdes e vê na Bolsa de Empregabilidade mais uma oportunidade para voltar à atividade de que gosta e de preferência, com mais estabilidade. Ainda a fazer a volta pela Feira, mostrou-se confiante no contacto posterior de algumas das empresas em que apresentou a candidatura.

Imigrantes timorenses também procuraram trabalho na Bolsa de Empregabilidade

Além dos candidatos que se inscreveram individualmente, outros participaram na Bolsa de Empregabilidade através de IPSS’s que promovem a integração de utentes com algum tipo de vulnerabilidade no mercado de trabalho.

Entre eles esteve um grupo de 22 imigrantes timorenses que estão atualmente no Centro de Acolhimento de Lisboa.

Paula Ferreira, do Gabinete para a Inserção profissional de Migrantes do Alto Comissariado para as Migrações em Portugal explicou à Renascença que selecionaram do grupo maior que está o Centro aqueles elementos que, de alguma forma, poderão ter uma oportunidade de emprego na área do turismo.

Um grupo com muitos jovens, quase todos do sexo masculino, com poucas qualificações e praticamente sem falar português. A equipa do Alto Comissariado passou o dia a fazer contactos com as empresas para a sua possível integração, preferencialmente nas cozinhas e limpezas. Paula Ferreira considera que as empresas se mostraram sensíveis e disponíveis para os receber.

No grupo, o entusiasmo era indisfarçável e os telemóveis não pararam de registar o momento. Joana Nunes da Costa foi a porta-voz por ser um dos únicos elementos que fala português. Contou-nos que tem o ensino secundário e um pequeno restaurante em Timor, mas veio para Portugal à procura de uma vida melhor. O início não correu como sonhara, mas mantém a esperança de em breve ter um emprego. O mesmo se passa com os seus companheiros. Pode ser que arranjem algum trabalho nas limpezas de hotelaria ou numa cozinha, mesmo que seja a lavar louça.

Para Paula Ferreira, não qualquer dúvida que conseguir um emprego é a melhor forma de se tornarem menos dependentes de ajudas e se sentirem mais integrados na sociedade. A teoria é válida para este grupo de timorenses ou para quaisquer outros migrantes”, sublinha a representante do Alto Comissariado para as Migrações.

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