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Entrevista a Jakob-Moritz Eberl

O populismo virou-se para a ciência e combater a desconfiança que semeou “exigirá um esforço a longo prazo”

12 ago, 2021 - 06:30 • Joana Gonçalves

“Os alicerces do populismo são semelhantes à base de qualquer teoria da conspiração”, defende Jakob-Moritz Eberl, em entrevista à Renascença. Para o investigador austríaco, este é um problema que atinge sobretudo as gerações mais velhas e que dificilmente será combatido a curto prazo. Restabelecer a confiança dos cidadãos na ciência é o desafio.

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Se no início da pandemia os portugueses se viraram para a ciência em busca de respostas e orientação, nos últimos meses parece ter aumentado um movimento de ceticismo e, nalguns casos, até, de reprovação e descrença perante os mesmos especialistas que, desde março de 2020, procuram respostas para pôr fim a esta crise.

As teorias da conspiração, que já antes circulavam sobre a Covid-19, ganharam um novo impulso com a chegada da vacina e a ciência, que há um ano triunfou, regrediu agora para um estatuto menos digno, aos olhos de alguns. Mas como se explica este fenómeno?

Para Jakob-Moritz Eberl, investigador da Universidade de Viena e membro do ACPP - Austrian Corona Panel Project, a resposta é simples: o populismo chegou à ciência.

Aos atores políticos e aos media, que eram até aqui os principais alvos do discurso populista, juntaram-se, recentemente, as instituições científicas e os académicos que as representam.

“Abrimos uma caixa de pandora”, defende o académico austríaco, em entrevista à Renascença. “Esta desconfiança que observamos agora [em relação à ciência] é a mesma a que assistimos contra os media e que aumentou significativamente depois da crise migratória de 2015. Temos de equacionar isto a longo prazo, e tentar compreender de que forma vamos recuperar essa confiança”.

Para o investigador, membro do Centro de Investigação Eleitoral de Viena, “os alicerces do populismo são, de certa forma, muito semelhantes à base de qualquer teoria da conspiração” e a resposta não será alcançada no curto prazo, mas exigirá um esforço contínuo durante os próximos tempos, para lá do fim da pandemia.

Aumentar a literacia científica e promover o diálogo ciência-sociedade pode ser a solução.

Num artigo científico, de que é autor principal, defende que o “populismo científico” está no centro das teorias da conspiração sobre a pandemia da Covid-19. De que forma?

O que acho interessante é que, quando pensamos em populismo, na maioria das vezes, só nos ocorre o populismo político. Associamo-lo à noção de "adorar e zelar pelo povo" e em como as elites políticas são percepcionadas como “malévolas” ou “perversas”, com intenções próprias que só as beneficiam. Na maioria das vezes, também associamos, automaticamente, o populismo a uma ideologia nativista e de direita.

O que defendemos neste artigo é que temos de dar um passo atrás e olhar para as atitudes populistas dos eleitores, por um lado, independentemente da sua ideologia - não interessa se são de direita ou esquerda, mas sim se apresentam atitudes populistas, algumas associadas ao anti-elitismo, outras a uma visão maniqueísta do mundo - e, por outro lado, compreender esta crença de que os cidadãos representam boas intenções e sabem sempre o que é melhor para todos. Esta é a ideia chave do populismo.

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"Os alicerces do populismo são muito semelhantes à base de qualquer teoria da conspiração."

Defendemos, por isso, que, especialmente nesta pandemia, o populismo não se centra apenas nas elites políticas, mas também nas elites científicas, representadas por académicos, especialistas e instituições científicas que detêm o poder sobre o que é verdade. E, uma vez mais, os populistas defendem que esta verdade está a ser utilizada contra o cidadão comum.

Crê que todas as pessoas que agora acreditam em teorias da conspiração relacionadas com a Covid-19 já antes apresentavam uma atitude anti-ciência, de ceticismo perante o conhecimento científico? Por exemplo, acredita que estes cidadãos são anti-vacinação? Ou não é possível identificar uma relação direta entre uma atitude prévia anti-ciência e a crença nestas teorias da conspiração, no contexto da pandemia?

Essa relação nunca é absoluta. Não é certo que todas as pessoas anti-ciência sejam anti-vacina, como também não há uma garantia de que todas as pessoas anti-vacina sejam, de forma generalizada, anti-ciência. Mas há uma correlação muito forte entre as duas.

A questão é: o que surgiu primeiro? E nós sabemos que já existiam movimentos populistas políticos antes de concebermos a ideia de populismo científico. Por isso, temos de olhar para os agentes que alimentam ideias populistas. O facto é que a fonte do populismo científico é a mesma do populismo político, tem origem nos mesmos atores políticos: partidos populistas de direita, na maioria dos países, e partidos populistas de esquerda, nalguns casos também. Apesar de que os populistas de esquerda tendem a defender uma visão tecnocrática, onde a ciência é vista como importante e fundamental.

Por isso, o que observamos é que o populismo científico provém, sobretudo, de partidos populistas de direita, que transitaram de uma ideia de que as elites políticas e os media são maus, para um novo discurso focado nas elites científicas, nos académicos.

Se ouves constantemente que os especialistas têm más intenções e que há uma complô académico, que une os media, os peritos e os políticos, num plano macabro que decidirá o destino da humanidade, então tendes a acreditar em teorias da conspiração, porque os alicerces do populismo são, de certa forma, muito semelhantes à base de qualquer teoria da conspiração. Há sempre uma elite algures, mal intencionada, que nos tenta controlar. Esta é a essência do populismo e das teorias da conspiração.

Não deixa de ser curioso que, aparentemente, e no caso particular de Portugal, parte dos cidadãos que no início da pandemia se viraram para a ciência e para os académicos em busca de respostas, conselhos e orientações sobre como escapar ao vírus e controlar a pandemia, são também os mesmos que começam agora a duvidar das novas informações científicas e das decisões políticas tomadas com base nesses conhecimentos e orientações. Como é que se explica esta mudança na perceção dos cidadãos relativamente à ciência e aos especialistas?

Não conheço os dados para a população portuguesa em específico, mas na Áustria o que observamos é que são grupos muito distintos de pessoas. Mas, de forma geral, diria que é natural que tenhamos algum grau de ceticismo, tanto em relação ao Governo, como aos media e instituições científicas.

Contudo, o que é muito importante compreender é que há todo um processo até à aquisição de conhecimento. E neste processo vamos sempre encontrar um cientista, um especialista que nos dirá que as máscaras não são eficazes, que certas medidas não deveriam ser tomadas ou que o vírus não é perigoso. Porém, temos que ver as coisas em perspetiva e entender que neste caso há um grande grupo de cientistas que discordam, há um consenso científico do outro lado. O que pode nem sempre ser fácil de compreender por parte destas pessoas, mesmo que tenham o interesse de pesquisar sobre o que se passa.

É possível que caiam na armadilha do viés de confirmação, onde encontram uma pessoa que seja, pode até ser um investigador, que lhes diz que as máscaras não funcionam e, discordando pessoalmente do uso da máscara, optam por ouvir este especialista e é nele que depositam a sua confiança, mesmo que represente uma posição minoritária, na comunidade académica.

"Temos de conseguir explicar as nossas dúvidas e incertezas, mas com o cuidado de as apresentar em perspetiva."

Desvalorizar estas preocupações não é, por isso, a solução. Aumentar o contacto entre o público e a ciência pode ser o caminho? Acredita que esse esforço já está em curso?

Acho que o importante é que sejamos o mais transparentes possível. Isto também quer dizer que se houver efeitos secundários da vacina, devemos ser transparentes quanto a isso e não limitar-nos a dizer "és anti-vacina, só te focas nos efeitos secundários, não quero falar contigo, és maluco, um conspiracionista".

Temos de ser abertos e transparentes sobre estes efeitos secundários e temos de conversar com estas pessoas, procurar o diálogo. No fim de contas, a evidência é clara e cada vez mais precisa. No início da pandemia tínhamos informações com um elevado grau de incerteza e essa informação foi ficando cada vez mais clara. E este é, também, um processo que temos de explicar aos cidadãos, que ainda estamos a aprender, mas há coisas que por esta altura já sabemos e são cada vez mais evidentes.

Temos de conseguir explicar as nossas dúvidas e incertezas, mas com o cuidado de as apresentar em perspetiva. Até ao momento, é claro que o vírus continua a ser mais perigoso do que todas as alternativas que temos vindo a apresentar.

Em conversa com outros académicos, ouvi várias vezes que desistiram de tentar explicar os benefícios da vacinação a pessoas que se recusam a aceitar a vacina. Acredita que é possível alterar a perceção de um cidadão que é contra a vacinação, de forma a aumentar a confiança que este tem na ciência e, em último caso, a aceitar ser vacinado contra a Covid-19?

Não acredito que o consigamos fazer a curto prazo. Terá de ser um esforço a longo prazo e é algo que teremos de combater mesmo depois da pandemia terminar. E repare que não estou a dizer "se a pandemia terminar", mas "quando a pandemia terminar". O que significa que isto é uma espécie de "caixa de pandora" que abrimos.

Esta desconfiança que observamos agora é a mesma desconfiança a que assistimos contra os media e que aumentou significativamente depois da crise migratória de 2015. Temos de equacionar isto a longo prazo, e tentar compreender de que forma vamos recuperar essa confiança.

É algo que os media tentaram através do reforço da transparência e é algo que a academia, os governos e os media terão de fazer, juntos, durante a pandemia, mas também quando ela terminar, muito depois de terminar. Porque as pessoas não vão simplesmente parar de acreditar nestas teorias da conspiração e abandonar o ceticismo perante a ciência, quando a pandemia chegar ao fim.

Não sabemos se não virá outra pandemia, ou outra crise. Aliás, continuamos a ter que lidar com as alterações climáticas, que enfrentam o mesmo problema e as mesmas pessoas que tendem a desconfiar do conhecimento científico sobre o SARS-CoV-2 também desconfiam das evidências das alterações climáticas.

Por que motivo é acentuada essa tendência de desconfiança, hesitação e ceticismo relativamente a estes dois temas. O que têm em comum que parece promover este tipo de discursos populistas e anti-ciência, que contrariam a evidência científica?

É muito difícil apontar uma característica específica, mas o que observamos em ambos os discursos e nos dois casos é que se tratam de matérias internacionais, problemas a nível global que estão a ser discutidos ao nível das elites e de forma complexa. Não há respostas simples, respostas fáceis.

Para além disso, em ambos os casos, apesar de que a escalas diferentes, as consequências exatas da inação estão no futuro e são difíceis de antecipar e compreender. O que significa, por exemplo, que daqui a 30 anos podemos chegar a um ponto de não retorno com o clima? Ou como explicar o que poderia ter acontecido se não tivéssemos adotado medidas de controle da pandemia?

É algo muito difícil de comunicar, porque são coisas que ainda estão para acontecer e se as pessoas não estiverem realmente interessadas em entender estes fenómenos não vão ter uma reação emotiva ou empática e, por isso, também não compreenderão imediatamente a importância de agir de certa forma.

As redes sociais são mesmo as principais responsáveis pela emergência e divulgação destas teorias da conspiração?

A OMS alertou, muito cedo, para uma "infodemia" [isto é, uma pandemia de desinformação] que agravou o cenário já preocupante da pandemia da Covid-19, com informação incorreta e falaciosa a espalhar-se como um vírus. Isto é, definitivamente, algo que observamos nalguns grupos da população.

No entanto, a maioria da informação enganosa, aquela chega a mais pessoas e é lida e vista por mais cidadãos, vem de líderes políticos. Nos EUA foi divulgada, sobretudo, através do Presidente Donald Trump, que partilhou um número enorme de informação enganadora sobre o vírus. Isto é algo que vemos, também, em vários agentes populistas na Europa.

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"É, sobretudo, importante entender que este não é um problema das novas gerações."

Mas tudo é muito mais facilmente divulgado, através das redes sociais. Qualquer pessoa pode fazer uma alegação e são precisamente as mais descabidas e surpreendentes que recebem mais "gostos" e mais partilhas, aumentando assim a probabilidade de surgir no nosso feed, mesmo que não conheçamos essa pessoa.

É, definitivamente, um problema. Sabemos que estas grandes plataformas continuam a tentar encontrar uma forma de controlar este fenómeno, a questão que se coloca é se devemos depositar todas as nossas esperanças na tecnologia, quando foi precisamente a tecnologia que nos trouxe até aqui.

Não deveríamos, então, tentar aumentar o nível de literacia científica, mediática e política?

Sem dúvida. A literacia mediática, de saúde e política é definitivamente um aspecto em que temos que melhorar.

E é, sobretudo, importante entender que este não é um problema das novas gerações. É comum ouvirmos que os jovens não sabem o que se passa na internet, não entendem o mundo. Mas a verdade é que este também é um problema das gerações mais velhas, em particular das faixas etárias acima dos 60 anos, pessoas que provavelmente já estão reformadas e não são nativos digitais. É muito difícil para estas pessoas distinguir um site legítimo e oficial de uma página bem conseguida por um anónimo.

Como podemos, então, pôr fim à adesão do público a novas teorias da conspiração e aumentar a confiança dos cidadãos na ciência? Serão as instituições científicas, ainda, muito elitistas?

Acredito piamente que há várias soluções e não uma única resposta milagrosa. Mas há diversas formas de enfrentar este problema. Por um lado, acho que os especialistas e académicos têm que vir mais cá para fora, dar mais entrevistas e partilhar cada vez mais o seu conhecimento com o público em geral.

Também é importante que os partidos políticos no poder sejam mais inclusivos, de certa forma. É crucial que sejam mais transparentes relativamente aos fundamentos que estão na base das decisões que tomam, das políticas que implementam.

E no fim de contas, temos mesmo que ter uma conversa séria com os partidos e os agentes populistas e explicar-lhes - eles já o devem saber, mas pelo menos reforçar - as consequências reais destes sucessivos ataques às instituições científicas e democráticas. Eles diminuem a confiança dos cidadãos em instituições centrais para democracias liberais e só nos aproximam de democracias iliberais, onde a maioria dos cidadãos europeus não deseja viver.

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