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Reportagem

Funerárias na linha da frente. “São muitos dias de sofrimento e não sabemos quando vai acabar”

06 fev, 2021 - 08:50 • Sofia Freitas Moreira

Aumentou o número de funerais, cresceram as filas de espera para os crematórios e prolongou-se a dor das famílias, que muitas vezes se encontram presas entre a falta de recursos financeiros e a ânsia de colocar um ponto final digno na história que ninguém quer viver para contar. Janeiro de 2021 ficou marcado na história de muitas vidas portuguesas. Foi o mês mais mortal desde que há registo e o principal motivo foi a pandemia.

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De “milagre europeu” durante a primeira fase da pandemia de Covid-19, Portugal passou a ser o país com mais óbitos por milhão de habitantes. Na linha da frente desta vaga de morte, sem paralelo na história nacional das últimas décadas, estão as agências funerárias.

Janeiro de 2021 foi o mês com mais mortes por todas as causas desde 1980, o primeiro ano de que há registos oficiais. A maioria dos contágios acontece em contexto familiar. A época natalícia intensificou esta realidade, que, no mundo das agências funerárias, muitas vezes se traduz em mortes “coletivas”.

“Apareceram-nos vários casos de membros da mesma família que morreram na mesma semana, às vezes até com poucos dias de intervalo”, conta Paulo Andrade, agente da Funerária Central de Benfica, em Lisboa. “Tivemos uma situação em que estávamos a velar o marido e, na igreja, recebemos a chamada de que a mulher tinha falecido. Tivemos de sair para a ir buscar”.

No momento em que a Renascença se encontrava no estabelecimento, um dos agentes da funerária foi chamado para um serviço coletivo, em que mãe e filha acabaram por morrer num espaço de 24 horas, no Hospital Garcia da Horta. “A mãe estava na casa dos 90 e a filha na dos 70. Ambas por Covid-19”.

Um terço dos óbitos provocados pelo novo coronavírus, até agora, ocorreu apenas no mês de janeiro. Em 31 dias, 5.576 portugueses juntaram-se às quase 2,3 milhões de vítimas da doença em todo o mundo.

Apenas no primeiro mês do ano, as consequências da terceira vaga de Covid-19, aliadas ao frio excecional que se fez sentir e à época que, por si só, já costuma ser mais mortal, tiraram a vida a 19.470 portugueses. Um excesso de mortalidade de 64%, quando comparado ao mesmo período de 2020, que pressionou as agências funerárias a níveis nunca antes vistos.

“Abrimos a casa em 1974 e nunca tivemos tanto volume de trabalho como em janeiro. Também somos humanos, também acontece aos nossos. Mentalmente foi desgastante”.

Paulo Andrade trabalha na Funerária Central de Benfica, em Lisboa, desde os 14 anos. Hoje, com 49, sublinha que nunca viu nada assim. Aponta que foi a partir de 10 de janeiro que o trabalho se começou a intensificar.

“As folgas praticamente não existiram. Normalmente, quando o negócio corre bem, fazemos 15 funerais por mês. Em janeiro foram 32. Mais que duplicou”.

O irmão de Paulo Andrade, parceiro do negócio familiar, chega apressado ao escritório e rapidamente percebe qual é o assunto da conversa. “Foi um aumento substancial. Cerca de 80% dos funerais que fizemos em janeiro foram de vítimas Covid”, aponta Nuno Andrade.

Contactada pela Renascença, a Câmara Municipal de Lisboa indica que o primeiro mês do ano registou os números mais altos de funerais e cremações dos últimos dez anos. Em janeiro de 2021, o município de Lisboa contou com 422 funerais e 549 cremações.

Relativamente a janeiro de 2020, os funerais aumentaram 41%. No ano passado, houve 250 cerimónias, menos 172 do que este ano. Pela primeira vez em dez anos, ultrapassou-se a marca dos 400 funerais.

Em janeiro de 2021, houve mais 168 cremações em relação ao período homólogo de 2020, quando foram efetuadas 381 cremações, um aumento de 31%. Também pela primeira vez na última década, ultrapassou-me a barreira das 500 cremações no primeiro mês do ano.

"São muitos dias de sofrimento"

Paulo Neves perdeu a mãe há cinco dias e não sabe ainda quando será o funeral. O serralheiro de alumínios deslocou-se à agência funerária para perceber como poderá desbloquear a situação, levar a progenitora até à última morada e fazer o luto.

No cenário de óbito natural e na eventualidade de a família querer uma autópsia, como foi o caso desta família, o teste à Covid-19 post mortem é obrigatório por lei.

Se der positivo, a autópsia não pode ser feita, pelos riscos de transmissão do vírus para os profissionais que lidam com os corpos. “São muitos dias de sofrimento e não sabemos ainda quando é que isto vai acabar”, relata à Renascença.

Paulo Neves conta que “a GNR da Trafaria se esqueceu de entregar um expediente ao Tribunal de Almada”. Paulo Andrade, que acompanha a conversa, acena com a cabeça e acrescenta que “sem esse documento, o Tribunal não consegue emitir a ordem para avaliar a hipótese da autópsia”.

Noventa por cento das autópsias “acabam por ser dispensadas pelo Ministério Público”, revela à Renascença Carlos Almeida, presidente da Associação Nacional de Empresas Lutuosas (ANEL).

“É o que está na lei e digo mais: a medicina legal, em Lisboa, tem feito das tripas coração e faço a minha vénia a toda a organização da Justiça que, a este nível, tem de facto dado resposta”, continua Carlos Almeida, que também é dono de uma agência funerária.

Do lado das famílias, Paulo Neves insiste que a espera é insuportável. “O meu pai está a sofrer muito, porque queria mesmo que ela descansasse. Queremos que seja cremada, mas já sabemos que isso também ainda pode levar o seu tempo”, remata.

Nove dias à espera de uma cremação

Os problemas que já se vinham a afigurar ao longo dos meses da pandemia agravaram-se nas últimas semanas, que muitos especialistas já apontam como o pico da terceira vaga.

Apesar do aumento da mortalidade, não há relatos de superlotação dos cemitérios. Porém, os alongados períodos de espera para as cremações levaram muitos ao desespero e, aqui, todos concordam que existem constrangimentos complicados.

A Direção-Geral da Saúde recomenda que as famílias recorram às cremações, mas Paulo Andrade e Carlos Almeida explicam que a preferência não é novidade nas grandes zonas urbanas, como a região de Lisboa e Vale do Tejo, a mais atingida pela Covid-19 no mês de janeiro.

Nos grandes centros urbanos, “60% dos óbitos querem cremação”, explica Carlos Almeida. “Associou-se o extremo frio que se fez sentir em Portugal continental à pandemia no seu auge. Foi a diferença entre a capacidade de resposta da Câmara Municipal de Lisboa, que tem três crematórios, de passar de 72 horas para seis dias de espera. Não há milagres”.

“Neste momento, a última cremação que marquei está agendada para daqui a nove dias”, diz, por sua vez, Paulo Andrade, que acrescenta ainda que, na sua agência e em contextos normais, a espera nunca ultrapassa os quatro ou cinco dias.

Não existe “o melhor dos dois mundos”

Carlos Almeida aponta algumas soluções que podem ajudar a diminuir o período de espera por que tantas famílias anseiam, apesar de defender que não há “o melhor dos dois mundos”.

Em todos os crematórios, existem também câmaras de frio. Para aliviar a pressão que é maior sobre os contentores à guarda dos hospitais, os corpos das vítimas podem ser levantados destes locais e ser levados para os congeladores dos crematórios, onde o funeral pode ser realizado antes da cremação propriamente dita.

“Tendo uma câmara de frio reservada no crematório onde vou fazer a cremação, posso organizar um funeral como se de um funeral se tratasse, com a comparência das pessoas e tudo o que é possível nesta altura”, explica. “Quando o corpo chegar ao cemitério, em vez de ir para o crematório, vai para a câmara de frio”.

No dia da cremação, organiza-se uma cerimónia mais técnica e restrita, apenas para os familiares mais chegados. “Isto é o pão nosso de cada dia. É daquelas coisas escondidas de que as pessoas normalmente não se apercebem”, sublinha o presidente da ANEL.

“Isto é excelente, porque, primeiro, já estamos a aproximar o cadáver do local onde vai acontecer o último ato e as pessoas já prestaram homenagem. Psicologicamente, ficam mais tranquilas. Nós podemos e temos utilizado estas ferramentas. Já viu a angústia que é estar tanto tempo à espera?”.

Outra solução para acelerar o processo de cremação, aponta Carlos Almeida, passa por levar os corpos para crematórios fora dos centros urbanos. “Neste momento, tem de se andar pelo menos 100 quilómetros para fora de Lisboa. Em Setúbal, canaliza-se quase tudo para Santarém. Almeirim é uma hipótese, Entroncamento a seguir. Leiria tinha para dois dias depois”.

A solução implica o custo acrescido do aluguer de um carro próprio para o transporte do cadáver. No entanto, o agente funerário explica que deixar o corpo, dias seguidos, numa câmara frigorífica de um crematório, pode sair ainda mais caro.

“Enquanto o cadáver está no contentor do hospital, é custo zero para todos, porque é horário público. Quando é transferido para a câmara de frio do cemitério, privada ou de gestão municipal, é cobrado um x ao dia, dependendo do local onde fica”.

Em média, os custos diários rondam os 50 euros. A Câmara de Lisboa cobra 30 ou 40 euros por dia. As entidades privadas, como a Servilusa, chegam a cobrar 60.

"Isto é tudo uma questão de avaliação de custos. Às vezes, não é preferível fechar-se logo o tema?, remata Carlos Almeida.

"Os clientes estão financeiramente asfixiados"

A forte crise financeira que acompanha as variadas consequências da pandemia, e que levou muita gente ao desemprego, também se apresenta como um problema para muitas destas famílias.

Um funeral não é uma cerimónia de baixo custo e, para além disso, muitas funerárias tiveram de aumentar os preços para contornar os gastos com o material de proteção contra o vírus.

Apesar de a população desempregada ter diminuído 4,7% em novembro, para 368,9 mil pessoas, aumentou 6,3% em comparação com novembro de 2019. Estes últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que, de um ano para o outro, mais 22 mil portugueses ficaram sem os empregos.

Muitos dos nossos clientes estão asfixiados financeiramente. Nós, onde quer que vamos, temos de pagar tudo de imediato, ninguém facilita”. Paulo Andrade explica que, em algumas situações, a agência opta pelo pré-pagamento ou pela sinalização de 50% do valor da cerimónia para proteger o negócio.

“Aparecem-nos muitas pessoas que dizem que estão desempregadas, que estão confinadas, que não sabem o que fazer. Dos 32 funerais que fizemos em janeiro, tivemos quatro casos assim. É complicado”.

Antes do início de 2021, a Funerária Central de Benfica cobrava entre 1.600 a 1.700 euros por cerimónia fúnebre. Agora, aumentaram para valores perto dos dois mil.

“Tentamos evitar ao máximo, mas os equipamentos que usamos são muito caros. Os fatos do pessoal que vai buscar os corpos são descartáveis. Máscaras então, nem se fala. Isso tudo aumenta o preço”, explica.

Outro fator que faz aumentar os custos é a contratação de diáconos para a celebração dos funerais, porque, hoje em dia, “também não é fácil haver padres que queiram fazer estes serviços, pelos riscos envolvidos”.

Funerárias querem prioridade na vacinação

Muitas agências funerárias trabalham durante a noite, para que as celebrações fúnebres possam acontecer o mais cedo possível. Para os irmãos Andrade e para o filho de Paulo, que também trabalha no negócio da família, é a única forma que têm de ir descansando.

Janeiro foi um mês atípico para esta agência, e para muitas outras pelo país fora, e o cansaço emocional não é tão fácil de tratar com algumas horas de sono. “Como lidamos com emoções muito fortes, agravadas pelos distúrbios de estarmos a viver uma pandemia, tudo isto cria complicações no nosso sistema nervoso, para podermos ajudar as famílias da melhor maneira possível”, confessa Paulo.

Por essa razão, o empresário é um dos muitos agentes funerários que defendem que os profissionais desta área devem integrar os grupos prioritários da vacinação contra a Covid-19.


O presidente da ANEL, Carlos Almeida, disse ter pedido esclarecimentos à DGS, na sequência da publicação da norma sobre a fase 1 da campanha de vacinação.

Este responsável notou que, como 99% das 1.300 agências funerárias são pequenas e médias empresas familiares, "se alguém apanha Covid-19, a probabilidade de todos terem de encerrar a atividade é o passo a seguir", como já aconteceu.

"Pode acontecer haver localidades em que não haja depois uma empresa funerária próxima para poder executar os serviços fúnebres", advertiu, explicando que "fechar uma agência funerária não é a mesma coisa que fechar um balcão de um banco".

“Tratamos os nossos clientes como se se tratasse dos nossos. Assim é que é correto. Mas corremos riscos”, assume Paulo Andrade. “Após a morte, nós é que estamos na linha da frente”.

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