Transatlantic Trends

​Estudo revela que 53% dos apoiantes da CDU defendem Ucrânia na NATO

02 out, 2023 - 01:07 • José Pedro Frazão

O sociólogo Pedro Magalhães e a politóloga Raquel Vaz Pinto analisaram os dados do relatório "Transatlantic Trends", apoiado pela FLAD, que o German Marshall Fund publicou nos últimos dias. Portugal é o país mais entusiástico no apoio à Ucrânia, mas não parece ver retribuída a sua confiança nalguns parceiros ocidentais, assinalam os especialistas que comentaram o relatório de 2023.

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Uma análise dos dados sobre Portugal do relatório "Transatlantic Trends 2023" publicado pelo German Marshall Fund (GMF) mostra que a maioria dos inquiridos que se identificam com a CDU é favorável à entrada da Ucrânia na NATO e na União Europeia.

"É incrível que 53 % dos inquiridos que se afirmam próximos do Partido Comunista pensem que a Ucrânia deve entrar na NATO. É realmente interessante. 57% deles pensam que a Ucrânia deve entrar na UE e 67% pensam que a Ucrânia deveria ser apoiada financeiramente na sua reconstrução", revelou o politólogo especializado em estudos de opinião pública, Pedro Magalhães, na apresentação formal do relatório nas instalações da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), que apoia pelo segundo ano a inclusão de Portugal no estudo que abrange agora 14 países.

O estudo de opinião do GMF foi efetuado pela empresa Kantar Public entre 15 e 27 de junho de 2023 através de questionários eletrónicos. A amostra em Portugal foi de 1.500 respostas.

Consultando a tabela em pormenor, disponível no site do GMF, observa-se que entre, o eleitorado da CDU que defende a entrada da Ucrânia na União Europeia, 33% concordam de alguma forma com esse cenário e 24% defendem fortemente essa solução.

Em sentido contrário, o desacordo sobre a entrada da Ucrânia na UE cifra-se em 43% dos inquiridos que se identificam com a CDU, dos quais 26% manifestam uma forte discordância com essa possibilidade.

Os números são ligeiramente menos entusiásticos em relação à entrada da Ucrânia na NATO. As tabelas mostram que 47% dos inquiridos na área comunista discordam da adesão ucraniana, incluindo 29% com uma rejeição declaradamente forte desse cenário.

Entre os 53% a favor da Ucrânia na NATO, 27% defendem fortemente a entrada na Aliança Atlântica. Mais intensa é a predisposição para o apoio financeiro à reconstrução da Ucrânia. 67% dos apoiantes da CDU são a favor e 33% são contra.

Globalmente, o estudo mostra que, dentro da amostra de 14 países, a opinião pública portuguesa está no topo dos estados com cidadãos mais europeístas e defensores da Ucrânia.

Posições russas não agradam aos portugueses

Numa sala bem preenchida da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, a primeira grande surpresa detetada pelos politólogos Raquel Vaz Pinto e Pedro Magalhães centrou-se na opinião de determinadas faixas de inquiridos portugueses sobre a Ucrânia e sobre a Rússia.

O sociólogo considera que o relatório mostra uma "despolitização" dos temas de relações internacionais e da guerra. "O Partido Comunista tem neste momento intenções de voto de 4%. Se observar as outras posições partidárias são de silêncio cauteloso ou apoio total. É a isto que me refiro quando falo em baixa politização dos temas", respondeu Magalhães a uma pergunta da audiência.

Já Raquel Vaz-Pinto assinala que a opinião pública portuguesa tem uma imagem muito negativa da Rússia, detetando um "absoluto consenso" nos partidos políticos portugueses.

"E mesmo dentro da CDU há 35% de opiniões muito negativas sobre a Rússia e 38% apenas negativas. Isso é interessante, tendo em conta as declarações políticas de muitos deputados e do próprio partido ao longo da guerra", complementa a professora de Relações Internacionais.

Os dados mostram uma avaliação particularmente negativa da ação da Rússia nos inquiridos que se identificam com a Iniciativa Liberal (97%), PAN (95%) e Bloco de Esquerda (92%).

Magalhães pede cautela na análise de consensos tão generalizados e atribui esses resultados à "completa despolitização" das questões de política externa.

"As pessoas não ouvem os partidos políticos a dizer coisas muito diferentes, a colocar dilemas ou escolhas diante da opinião pública a partir das consequências de questões como a adesão da Ucrânia à NATO ou à UE. É muito fácil obter este consenso quando a questão é de baixa importância no contexto político", justifica o especialista em estudos de opinião.

Grau de confiança nos parceiros não é retribuído

O sociólogo Pedro Magalhães assinala que o atlanticismo defendido pelos portugueses não é parcialmente correspondido pelos parceiros em quem Portugal confia.

"78% dos portugueses pensam que o Canadá é um país muito fiável. Infelizmente, apenas 51% dos canadianos pensam que os portugueses são de confiança. 69% dos portugueses consideram que os EUA são parceiros fiáveis, mas apenas 44% dos americanos têm a mesma opinião dos portugueses", exemplifica o politólogo do Instituto de Ciências Sociais, para quem esta falta de confiança em Portugal justifica-se pela ausência do nosso país no "mapa" das preocupações dos seus parceiros.

"Achei extraordinário que a percentagem de britânicos que não conseguem responder a esta questão é igual à registada na Alemanha. E, no entanto, entre todos os têm opinião, os alemães tendem a pensar que Portugal é mais confiável, comparando com a opinião dos britânicos. Se eu fosse embaixador nos Estados Unidos, no Canadá ou no Reino Unido - o que nunca vai acontecer - ou estivesse de alguma forma ligado à política externa portuguesa, estaria um pouco intrigado com estes resultados", complementa Pedro Magalhães.

China como parceiro

Especialista em política chinesa, Raquel Vaz Pinto destacou ainda os dados sobre Portugal e a China, que mostram que quatro em cada dez inquiridos portugueses considera que Pequim deve ser visto como parceiro, mais do que competidor ou rival.

A investigadora salienta que 47% dos inquiridos portugueses com mais de 55 anos consideram que a China é um parceiro.

"Talvez a explicação esteja nas ligações históricas como, por exemplo, Macau. Há uma geração que pode olhar para essa experiência de uma forma positiva. Mas há que dizer que a Macau de 2023 não tem nada a ver com a Macau dos anos 80 ou 90. Se mergulharmos nestes dados, vemos que a maior percentagem sobre o incremento da cooperação com a China está no tema das novas tecnologias. Isto pode estar ligado à expressão de mercado, por exemplo, da Huawei ou até a influência do TikTok em muitas dimensões das nossas sociedades. Entre os 18 e os 25 anos, 52% apoiam [cooperação em ] novas tecnologias", ressalta Raquel Vaz Pinto no comentário ao estudo.

Faltam dilemas na política e nas sondagens

A politóloga salienta que a maioria dos inquiridos portugueses defende uma abordagem mais dura com a China em direitos humanos, mas acredita que as opiniões podem mudar com os contextos políticos e mediáticos da atualidade

"Por vezes, ficamos com a sensação que a resposta a algumas destas questões são de alguma forma mais ‘fáceis’ para o público português, particularmente quando olhamos para os seus impactos económicos e orçamentais", assinala Raquel Vaz Pinto, antes de Pedro Magalhães sugerir ao GMF a inserção de perguntas mais enquadradas perante escolhas a fazer.

Algumas destas questões podem beneficiar da colocação dos inquiridos perante dilemas e escolhas, defende o politólogo. "Quando se pergunta se deve ser exercida uma posição mais dura em relação à China, apesar das consequências económicas, o apoio português simplesmente diminui. Não estamos demasiado entusiasmados, em comparação com outros países, pela abordagem mais dura junto da China, se isto tiver consequências económicas negativas. Expor consequências pode dar um resultado diferente", alerta Pedro Magalhães, que insiste na baixa relevância dos temas internacionais para os portugueses.

Para o investigador do ICS, "ser europeu e atlântico não é um jogo de soma zero para os portugueses. Não é um dilema, não é uma contradição", ao constatar que Portugal surge neste estudo como o país onde mais pessoas pensam que as relações entre os EUA e a Europa serão mais fortes ou que a NATO é importante para a defesa do país.

Magalhães ressalta ainda que Portugal é o terceiro país onde mais pessoas dizem que os EUA deviam estar mais envolvidos na segurança e defesa da Europa, com mais de 80%, sendo também o país que mais pensa que se deveria fazer mais na área da segurança e defesa com recurso a parcerias.

"Tem sido assim porque a posição de Portugal no mundo influencia as opiniões das pessoas e dos partidos políticos. Não se convençam que este consenso e a ausência de compreensão de um dilema entre ser europeu e atlanticista vai ser necessariamente assim para sempre. Isto tem a ver parcialmente com a baixa relevância das questões de política externa no debate político português", explica Pedro Magalhães.

Aviso a Washington

Num recado final perante uma plateia envolvida no estudo e no aprofundamento das relações transatlânticas, Raquel Vaz Pinto alertou para o erro de considerar que a influência menos visível - o chamado "soft power" - dos EUA não deve ser dado como garantido.

"Hoje há muitos centros que concorrem em termos de 'soft power'. Honestamente, se estivesse em Washington, estaria a analisar de que forma se pode renovar a atratividade do ‘soft power’ dos EUA e como preencher lacunas na geração mais jovem também nos países europeus. Os políticos não comunicam bem. Temos um défice de comunicação política, não no sentido de ‘vender’ algo, mas de explicar as coisas e transmitir a mensagem", rematou a professora da Universidade Nova.

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  • Vitor Vieira
    03 out, 2023 Porto 09:07
    Um belo exemplo de "construção de narrativa". Desde logo, nos diversos documentos que estão disponíveis não vi qualquer referência às preferências políticas dos sondados. Segundo, dos partidos portugueses o que sempre foi mais crítico da Rússia pós-URSS foi o PCP. Tudo isto me parece sobretudo uma invenção.

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