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Porque não aumentam os salários?

02 jul, 2023 - 11:33 • Sandra Afonso

O capitalismo tem sido o alvo de todas as críticas. É acusado de aumentar a desigualdade, travar o crescimento, dificultar o desenvolvimento. Mas será assim? Tepper e Hearn têm outra teoria.

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Os trabalhadores reclamam por melhores vencimentos, as empresas pedem mais produtividade, os governantes querem mais competitividade. Como diz o povo: casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.

Jonathan Tepper, em coautoria com Denise Hearn, defendem que não. Não é o sistema que está a impedir o aumento dos salários, é a forma como o capitalismo está a ser aplicado – são os monopólios e a ausência de um mercado concorrencial. Por isso falam n’ “O Mito do Capitalismo” (Desassossego).

Num sistema capitalista perfeito, o aumento da produtividade e a falta de mão-de-obra faz aumentar os salários, mas nos Estados Unidos o trabalhador típico ganha o mesmo há quatro décadas.

O sistema capitalista mantém a economia ativa ao promover a eliminação das piores empresas pelas emergentes, mas desde final de 1970 a taxa de novos negócios caiu para metade. No capitalismo as empresas devem investir os lucros, mas o investimento está em queda, embora as empresas acumulem cada vez mais lucros.

Para Tepper, fundador da Variant Perception, um grupo de investigação macroeconómica, isto acontece porque o mercado está concentrado. Nas últimas décadas, passámos de um mercado livre e competitivo para uma economia em que poucas empresas dominam.

Os Estados Unidos servem de pano de fundo para toda a teoria, mas na atual economia global, é facilmente replicada a outros cenários.

Os autores explicam como os consumidores vivem hoje uma “ilusão de escolha”.

Na verdade, para a maioria das decisões, contam com um número limitado de opções: quatro empresas produzem 89% dos produtos infantis, duas empresas controlam 76% do mercado dos caixões, quatro companhias concentram a maioria do transporte aéreo doméstico norte-americano, três empresas dominam o mercado de pesticidas e sementes, Goggle e Apple controlam as aplicações móveis, meia dúzia de empresas controlam as marcas alimentares e duas empresas dividem as viagens online.

Segundo este trabalho, os monopólios e oligopólios crescem sem restrições. Google, Facebook, Amazon, Apple e Microsoft compraram 436 empresas e startups em dez anos, sem a imposição de qualquer “remédio” pela regulação.

Há sectores altamente concentrados que dividem o país entre si, “como a máfia divide o terreno entre famílias”, explicam os autores. Ao permitir esta concentração industrial extrema, o governo garante e encoraja “a concentração aberta e tácita”.

A economia está dominada por uma minoria sistematicamente alimentada pelos salários dos trabalhadores e consumidores, bloqueados numa guerra injusta, onde o poder é claramente desigual.

Em monopólio muitos preços aumentam

As fusões tornaram-se uma prática corrente, para salvaguardar os empregos, garantir o crescimento e até o aumento da produtividade, com reduções de preço. No entanto, na prática, os preços nem sempre descem.

Na saúde, há estudos que demonstram que a concentração de hospitais norte americanos aumentou o custo das admissões entre 15 a 20%, entre zonas com quatro unidades e zonas onde há apenas um hospital.

Cerca de 46 milhões de casas americanas não têm operador alternativo no cabo, segundo o The Economist, pagam mais 65 mil milhões do que os alemães.

Muitas fusões são feitas “apenas com a intenção de pressionar os trabalhadores, os fornecedores e os parceiros de negócio. Ao esmagar os seus rivais, as empresas transferem o dinheiro para si próprias”. No final, “poucas pequenas empresas sobrevivem”.

Um “cocktail tóxico”

O resultado desta concentração económica esmagadora é um “cocktail tóxico”, segundo Tepper e Hearn.

Com menos empresas há menos inovação, menos descentralização e menor diversidade. Os preços aumentam, as start-ups diminuem, a produtividade é menor, os salários são mais baixos, a desigualdade aumenta e as pequenas cidades degradam-se.

Há cidades inteiras que surgem e se desenvolvem dependentes de um único negócio ou indústria. Os salários são definidos por um único patrão, os trabalhadores não têm praticamente escolha ou poder negocial. Quando o negócio é deslocalizado ou encerra, a cidade fica em morte lenta.

O que podem/devem os reguladores fazer?

É deles o papel principal, nesta batalha. As instruções são claras:

  • Garantir o cumprimento das leis da concorrência;
  • Rejeitar fusões que limitem o mercado a poucos participantes;
  • Dividir grandes empresas e reverter fusões;
  • Rever o conceito de “bem-estar” do consumidor;
  • Limitar patentes;
  • Conceder ações a trabalhadores;
  • Acabar com portas-giratórias entre grandes empresas e governo.

Nós, consumidores, somos aconselhados a não gastarmos o dinheiro em empresas dominantes, quando há alternativa.

Ao governo cabe garantir que não alimenta estes monopólios. “A correlação entre lobbying, a regulação e o lucro está concentrada num pequeno número de setores politicamente influentes”, explicam.

Os governantes não assistem apenas ao desenrolar da economia, são participantes ativos, “concedendo favores aos ricos e poderosos e olhando pelos interesses dos bens relacionados”.

Os autores concluem que, ao eliminar a concorrência, as empresas ganharam um poder de mercado significativo, com o qual têm aumentado preços e reduzido salários.

Explicam ainda que “o poder económico e político dos monopólios e oligopólios distorceu totalmente o jogo a favor das empresas dominantes e contra os empregados”. Isto não é capitalismo, “capitalismo sem concorrência não é capitalismo”.

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