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Entrevista

Alimentação e matérias primas. “Não está prevista nenhuma disrupção, o que pode variar é o custo”

30 mar, 2022 - 21:19 • Sandra Afonso

Presidente da Associação dos Portos de Portugal afasta a possibilidade de um problema de abastecimento de alimentos, matérias primas ou energia no país, nos próximos meses. Outra coisa é o preço pago pelos bens e serviços. Aqui nada está garantido, avisa José Luís Cacho.

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José Luís Cacho, que é também presidente da Administração dos Portos de Sines e do Algarve, defende ainda uma nova estratégia energética para o país, com Sines a servir de porta de entrada do gás para toda a Europa. Garante que o porto alentejano pode voltar a servir uma central a carvão, se necessário, e lembra ao novo Governo as prioridades para o setor.

Disse recentemente que Portugal pode ser a porta de entrada do gás para a europa. Não é a primeira vez que se coloca esta possibilidade, mas tem sido sempre adiada. Acha que é agora que avança, estão reunidas as condições?

Quando falo em Portugal, falo pelo Porto de Sines, que dentro de uma estratégia de diversificação do abastecimento de gás à Europa pode também dar o seu contributo, através da possibilidade que tem de receber gás natural e injetar, eventualmente num pipeline ibérico, que já existe. Precisa de alguns investimentos. Depois de ligado à França e aos restantes países da Europa, pode dar o seu contributo.

Quando fala em investimentos, são obras? De que tipo e para quanto tempo?

Nós temos atualmente uma infraestrutura que abastece quase a 90% ou 100% o mercado nacional. O pipeline ibérico também tem ligações, por pipeline, à Argélia, através do Mediterrâneo. Sines e eventualmente os portos ibéricos no seu todo poderão dar um contributo, com esse gás natural que venha da Argélia, que se estima em cerca de 20% das necessidades europeias.

Estamos a falar só da Argélia ou podemos receber também gás de outras origens, através de petroleiros, como dos Estados Unidos?

A Argélia tem a vantagem do pipeline.

Nós depois podemos receber de qualquer país do mundo que produza gás natural. Naturalmente que os Estados Unidos, como importante produtor, está interessado, como já o manifestou aquando da visita do Secretário de Estado do Comércio, à cerca de dois ou três anos, a Portugal.

Que impacto é que teria nos preços, este gás fornecido por petroleiros?

Isso não posso dizer. Os preços são fixados numa bolsa de mercado.

E para Portugal, em termos económicos, que impacto teria esta estratégia energética?

É mais economia para o país, depois espera-se que apareçam alguns negócios associados ao desenvolvimento deste processo. Coloca Portugal num posicionamento estratégico em relação à Europa diferente do que tem hoje, do ponto de vista da energia.

Há quem defenda a reativação da Central a Carvão de Sines, como Mira Amaral que já entrevistámos aqui na Renascença. Concorda com esta medida? Não ia alterar os planos já em curso para o terminal que recebia carvão?

O Governo é que deve responder. O que posso dizer é que se houver necessidade do país reativar centrais a carvão, o Porto (Sines) tem condições e capacidade de resposta para conseguir que isso aconteça.

Não está prevista qualquer disrupção no fornecimento alimentar.

Tem-se discutido também muito a possibilidade de uma crise no abastecimento, devido à alta dos preços. Como é que avalia a movimentação nos Portos em termos alimentares?

A informação que tenha é que as coisas estão tranquilas, apesar de Sines não ser um Porto que esteja muito ligado à questão, penso que está a falar dos cereais. A informação que tenho dos meus colegas também dos outros portos é que as coisas estão estabilizadas e que há garantias de abastecimento ao mercado nacional nos próximos meses. Não está prevista qualquer disrupção no fornecimento alimentar.

E no caso das matérias-primas, há menos movimentação nos portos, nota-se alguma paragem na atividade económica?

Face a esta situação, nota-se alguma agitação nas empresas em procurar stocks, matérias-primas e assegurar a pressão nos próximos meses, nos próximos anos. Naturalmente, isso cria pequenas perturbações. Agora, de uma forma geral, há alguma tranquilidade em relação a essa questão.

Enquanto presidente da Associação Portuguesa dos Portos, pergunto-lhe se este setor pode contribuir para aliviar a fatura dos consumidores.

A fatura portuária, no processo logístico, tem pouca expressão. Agora, o principal problema, de facto, e é um desafio para todos nós, é perceber qual será a evolução dos preços nos próximos meses e anos, relativamente aos próprios custos das matérias-primas.

Se a energia subir, a logística deve ter algum incremento de preço. Se houver uma subida de preço, isso é o normal dentro do contexto em que vivemos.

O que pode variar é o custo das matérias-primas

Os portos são estratégicos para o país? Isto tendo em conta o volume de alimentos e matérias-primas que passam por estas infraestruturas.

Os portos são uma porta de entrada e saída de produtos do país e têm um peso muito grande na questão da energia. Nós importamos todas as matérias-primas e todos os produtos energéticos, naturalmente que têm um peso importante. Não está prevista nenhuma disrupção, o que pode variar é o custo das matérias-primas. Isso são coisas normais do funcionamento do mercado, nós asseguramos todas as condições para que todos os fluxos de entrada e saída funcionem. Essa é a nossa missão.

Como é que avalia as infraestruturas de acesso aos portos? Estamos bem em Portugal?

Podemos estar sempre melhor. Há alguns investimentos em curso para melhorar as acessibilidades aos portos, quer rodoviária, quer ferroviária. Há um conjunto de investimentos que estão a acontecer e que vão novamente aumentar a competitividade e dar um enquadramento, talvez menos nacional e mais ibérico às infraestruturas portuárias. Penso que isso está a acontecer, uma maior integração da capacidade das infraestruturas portuárias nacionais no contexto ibérico.

Já temos um novo Governo, quais são os desafios deste executivo nesta área?

Alguns estão estabelecidos no programa do Governo: os investimentos no âmbito do PRR, no âmbito do Portugal 2020, no âmbito do Portugal 2030.

Quais são os investimentos mais emblemáticos que estão para acontecer, neste setor?

O que está previsto no Porto de Sines, no âmbito do PRR, é o investimento rodoviário já em curso: a ligação em autoestrada, com faixa dupla, de Sines à A2. Deverá estar concluída dentro de dois a três anos.

No Portugal 2020, com conclusão prevista para o próximo ano, está prevista a ligação ferroviária de Sines a Espanha.

No Portugal 2030 há também um conjunto de investimentos ferroviários previstos, designadamente, a ligação direta de Sines a Grândola e investimentos dentro da área portuária. Há também um conjunto de projetos associados à descarbonização, ao digital, ao corredor logístico de Sines. São um conjunto de investimentos importantes, que vão assegurar e aumentar a competitividade do Porto de Sines.

Qual é o orçamento previsto?

Da parte portuária, as acessibilidades ferroviárias rondam os 60 a 70 milhões de euros. Outras infraestruturas elétricas são da ordem dos 15 a 20 milhões de euros. Diria que, fora o prolongamento do molhe, os investimentos públicos vão rondar os 150 milhões de euros, nos próximos anos.

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