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Em tempo de pandemia e restrições, nasce um "booking" de funerais "online"

01 abr, 2021 - 07:28 • Olímpia Mairos

A nova plataforma digital chama-se “Funeral Booking” e já conta com 80 agências funerárias inscritas. Disponibiliza também um serviço de apoio que conta com profissionais especializados em psicologia de luto, entre outras áreas de especialização.

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A ideia nasceu em 2015. A implementação do projeto aconteceu em novembro de 2020, em plena pandemia de Covid-19. O primeiro cliente foi um alemão que, impedido de viajar, precisava de tratar do funeral da mãe que morreu em Portugal.

Sem falar português e com poucos conhecimentos de inglês, o cidadão alemão procurava na internet por agências funerárias no nosso país para, à distância, conseguir organizar o funeral. Foi assim que chegou à Funeral Booking, uma plataforma anunciada como “uma inovação a nível europeu”, que permite comparar preços e escolher operadores com maior transparência e agilidade.

A plataforma é gerida pela empresa “Funeral Booking”, com sede no Centro Empresarial de Santa Maria da Feira (CEF), no distrito de Aveiro. O conceito partiu do empresário Paulo Seco, de 44 anos, que, após vários anos a trabalhar no setor da saúde e em contacto com estruturas residenciais para idosos, decidiu apostar em um serviço que ainda não estava disponível no mercado.

“Fez-se aqui um clique e consegui perceber que havia uma necessidade, digamos, um ‘input’ a ser colocado no setor funerário porque, muitas vezes, as pessoas querem, de alguma forma, que o serviço seja prestado, todo ele honrado, ao seu ente querido que acabou por falecer, mas na verdade, com pouco discernimento mental, pelo momento que estão a passar, vão a qualquer agência”, conta à Renascença.

E foi com base na análise desta realidade que Paulo Seco decidiu lançar-se no desenvolvimento de uma plataforma que permite “a qualquer hipotético consumidor, em caso de alguma fatalidade, dentro do seu lar e no seu seio familiar, poder escolher uma determinada agência com determinado tipo de serviço”.

A qualquer momento, em qualquer lugar

Ao aceder ao site o utilizador pode indicar se pretende inumação ou cremação e se necessita de transporte aéreo. A seguir pode pesquisar por nome ou localidade a lista de funerárias - neste momento estão disponíveis cerca de 80 - e tem ainda a opção de escolher o tipo de urna, as madeiras utilizadas, a quantidade de pagelas a imprimir, as flores, entre outros.

Após a seleção do serviço, a funerária escolhida é contactada através da plataforma e terá que confirmar a sua disponibilidade para o serviço via email ou por telefone, no período máximo de quatro horas. Já o pagamento é efetuado diretamente às empresas lutuosas, sem intervenção da Funeral Booking.

A médio prazo, nota o diretor geral da empresa, as agências vão começar a ser “avaliadas e comentadas, por forma a esses comentários e essas avaliações poderem influenciar terceiras pessoas naquela escolha”.

Segundo Paulo Seco, a plataforma é “muito mais que uma ferramenta de venda ‘online’” na medida em que vai proporcionar também “soluções para o próprio setor funerário”, permitindo análises e disponibilizando um conjunto vasto de fornecedores.

“É mais do que uma plataforma de comercialização. É uma plataforma de dinamização para a vertente tecnológica, para um setor e também para o consumidor”, assinala, sublinhando tratar-se do primeiro serviço do género na Europa”.

Apoio especializado ao luto

Mas há mais. A Funeral Booking disponibiliza também um serviço de apoio ao luto que conta com profissionais especializados em psicologia de luto, entre outras áreas de especialização.

Um serviço que Paulo Seco considera muito importante, numa altura em que vivemos ainda uma crise pandémica, “em que se agudiza mais esta situação, pela pessoa não poder estar presente na hora da despedida do seu familiar”.

“Qualquer pessoa que necessite de algum suporte de apoio ou de uma terapia, pode, de forma rápida e imediata, entrar em contato com um profissional, sem que tenha que se expor, seja a amigos, família ou até mesmo a médicos de família, ou ter que ir a um consultório e estar numa sala de receção à espera para ter a sua consulta. No conforto do seu lar, a pessoa também pode contratar diretamente o profissional que lhe vai dar esse apoio”, sublinha o empresário.

E é aqui que entra Marta Pimenta de Brito, psicóloga especialista em Clínica, Saúde, Trabalho, Social e Organizações, membro da comissão de Saúde Mental do Health Parliament, disponibilizando serviços de psicologia em português, alemão, inglês, espanhol e francês.

Com uma larga experiência no apoio ao luto, a especialista começa por dizer à Renascença que a perda de alguém é algo que faz parte da vida de todos nós, enquanto a vivência do luto depende de vários fatores.

“Depende muito também da compreensão de conceitos relacionados com a morte, por exemplo, a questão da idade, a questão da finalidade e, depois, cada uma das pessoas tem recursos diferentes, mas é óbvio que, quando estamos a falar de uma morte natural, em que a pessoa já pode estar à espera, uma morte por velhice, é muito diferente de uma morte repentina por acidente ou mesmo, por exemplo, o caso que tenho cada vez mais frequente, que é o caso do suicídio”, explica.

Pandemia altera formas de enfrentar o luto

Embora na maioria dos casos as pessoas não recorram rapidamente à ajuda de profissionais para tratarem o luto, Marta Pimenta de Brito nota que a pandemia veio alterar um pouco a realidade.

“Nota-se uma diferença nestes tempos de pandemia. Também se nota que as pessoas falam mais sobre a saúde e a doença mental. Quase que se perdeu uma certa vergonha que existia em recorrer a uma ajuda especializada, quer de um psicólogo quer de um psiquiatra. Há realmente uma consciencialização maior na procura”, indica a especialista à Renascença.

O aumento na procura, segundo a especialista, justifica-se “pelos sintomas que as pessoas experimentam, quer de ansiedade quer de depressão, que vêm numa intensidade muito maior, porque há muito menos fatores de proteção e, portanto, as pessoas como não aguentam, acabam por recorrer muito mais facilmente e rapidamente”.

O facto de muitas pessoas não terem tido a possibilidade de se despedir dos seus entes queridos, vítimas de Covid-19, é uma realidade muito nova e com um impacto muito grande, principalmente na nossa cultura, em que há todo um ritual associado ao processo de luto.

“E estes rituais são de extrema importância. Nós, em Portugal, ainda temos muito a cultura de realizar um funeral, realizar um velório, abraçados por pessoas mais próximas, sejam familiares, sejam amigos, na maioria dos casos poder ainda ver o corpo de um familiar que acabou de partir... E tudo isso foi negado, não só o não o ver, como também não poder estar nessa hora de maior dor com as pessoas que possam, de certa forma, atenuar essa dor”, observa Marta Pimenta de Brito.

O processo de luto passa por várias fases e na psicologia há várias estratégias no sentido de apoiar a pessoa nas várias fases. Um processo que leva o seu tempo e varia de pessoa para pessoa.

“Eu costumo dizer, logo no início, que não se consegue tirar a saudade e a tristeza à pessoa, mas aquilo que garanto é que a pessoa, ao seu ritmo, vai conseguir voltar a ter uma vida em que sente novamente prazer e alegria, qualidade de vida. Agora a saudade da pessoa que perdeu, a tristeza por essa perda, essa vai sendo atenuada. Mas estaria a mentir, se dissesse que a vou retirar. Esse também não é o objetivo do acompanhamento num processo de luto”, assinala.

Consulta ‘online’ tem o mesmo resultado do que uma consulta presencial

A especialista que tem vivido e trabalhado na área do luto em seis países diferentes, para além de Portugal, não vê diferenças.

“Atualmente, as pessoas até preferem o ‘online’ nesta situação de Covid, porque tem uma série de benefícios e um deles é não termos que estar de máscara. E nós, na psicologia, estamos constantemente a falar sobre emoções. É importante para o paciente também ver a minha cara completa e não apenas uma parte”, afirma Marta Pimenta de Brito.

Alicerçada na sua larga experiência e no ´feedback’ dos pacientes, em vários países, a especialista não nota diferenças a nível dos resultados, destacando que “na psicologia, uma vez que também existe bastante estigma do ir ao consultório, do estar numa sala de espera de um consultório do psicólogo, o ‘online’ retira todos esses constrangimentos”.

Por isso, a especialista considera a nova plataforma “uma mais-valia para, à distância de um clique, as pessoas poderem, sem barreiras, organizar um funeral”.

“O facto de a plataforma também fazer parcerias com outros serviços, como é o caso do apoio psicológico no apoio ao luto, parece ser também uma mais-valia, porque acaba por ser um facilitador numa altura tão difícil que é a organização de um funeral”, observa.

Também o simples facto de a pessoa poder organizar o funeral à distância é para Marta Pimenta de Brito um fator importante na terapia do luto, exemplificando com a sua experiência no estrangeiro.

“Eu trabalhei em sete países diferentes, em que sempre tive pacientes portugueses e portugueses emigrados, portugueses que estavam expatriados”, conta a especialista, lembrando “vários casos em que tinham que tratar à distância de um funeral de um familiar que tinha falecido, devido a uma doença, por exemplo, mas também outros casos mais complicados, por suicídio, e o desespero de encontrar quem pudesse realizar este funeral, já para não falar de tratar de voos para estar à hora certa em Portugal, quer todas as questões organizativas associadas a toda este turbilhão de emoções que a pessoa está a viver naquele momento”.

“Uma plataforma como esta pode perfeitamente ajudar a melhorar este turbilhão porque vai facilitar nessa organização”, conclui.

“Transparência para o setor funerário”

O presidente da Associação Nacional de Empresas Lutuosas (ANEL), Carlos Almeida, saúda a iniciativa e considera a plataforma “benéfica para o consumidor”, destacando que permite “disciplinar todos os prestadores de serviços a critérios definidos para que o consumidor possa comparar aquilo que é comparável, consoante os critérios de seleção”.

Ainda assim, o responsável revela que muitos dos empresários “estão céticos” face à inovação e ao novo serviço.

“Eu chamava-lhe o tabu funerário. Há alguns empresários com alguma relutância porque, de facto, o orçamento de um funeral ainda tem muitas variáveis e eles temem que essas variáveis possam afetar, isto é, não ter sido equacionado conforme foi solicitado”, explica à Renascença Carlos Almeida.

O presidente da ANEL sublinha, no entanto, que foram mitigadas “um pouco” todas essas “variáveis”, “não as considerando”, explicando que “essas variáveis ocorrem mais vezes em termos de custos de pagamentos a terceiros, como é à edilidade ou às igrejas”.

“Vou dar-lhe um exemplo. Igrejas em Lisboa podem custar cerca de 500 euros, como podem custar 70 euros. E uma variável desta grandeza pesa no próprio orçamento e não dá credibilidade. Por exemplo, em termos de taxas de cemitério, uma cremação pode custar 150 euros e acabar quase em 500 euros”, exemplifica o responsável.

O cliente é informado sobre estes pormenores, mas tais variáveis não entram no orçamento. A funerária paga esses serviços a terceiros e é ressarcida dos valores.

“Tirando essas variáveis, podemos, com fiabilidade, dizer quanto custa um funeral e o consumidor ter as várias ofertas e de uma forma concreta, porque está a visualizar imagens até da própria urna, dos acabamentos, tem um resumo de todo o serviço, porque o definiu, cabe só aos profissionais aplicarem as suas tabelas que obrigatoriamente têm que ser aplicadas ao público e transpô-las para ali, de uma forma mais visível”, afirma Carlos Almeida.

Em síntese, o representante das empresas lutuosas considera que a via digital, que “está nas nossas vidas de uma forma imprescindível”, é também um caminho de transparência para o setor funerário, destacando a mais-valia de o “consumidor poder comparar e discutir e, pelo menos, ter logo soluções daquilo que procura via ‘online’”.

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