Papa quer uma Igreja capaz de chorar com os jovens
02-04-2019 - 11:00
 • Filipe d'Avillez

Francisco pede aos jovens católicos ajuda para combater a corrupção e os abusos na Igreja, na exortação apostólica pós-sinodal “Cristo Vive”, divulgada esta terça-feira.

Leia também:


O Papa Francisco quer uma Igreja capaz de chorar com as dores e os sofrimentos dos jovens.

Na exortação apostólica que foi publicada esta terça-feira, e que diz respeito ao sínodo dos jovens que decorreu no Vaticano em 2018, Francisco elenca uma série de dificuldades que se abatem sobre a juventude atual e pede: “Não sejamos uma Igreja que não chora diante destes dramas dos seus jovens filhos. Nunca nos habituemos, porque quem não sabe chorar não é mãe. Nós queremos chorar para que a sociedade seja também mais mãe, para que em vez de matar aprenda a dar vida, para que seja promessa de vida”.

Falando diretamente aos jovens, Francisco aconselha a aprender a chorar “pelos jovens que estão pior que tu. A misericórdia e a compaixão também se expressam chorando. Se não te saem, pede ao Senhor que te conceda derramar lágrimas pelo sofrimento dos outros. Quando souberes chorar, então serás capaz de fazer algo, do coração, pelos outros”.

A todos os que vivem em tristeza e dor, Francisco pede que abram o coração a Cristo. “Jesus faz-se presente nessas cruzes dos jovens, para lhes oferecer a sua amizade, o seu alívio, a sua companhia curativa, e a Igreja quer ser o seu instrumento neste caminho rumo à restauração interior e à paz do coração”, escreve.

Mas a exortação apostólica do Papa não se limita a apontar atitudes e caminhos para a Igreja se aproximar dos jovens. Francisco elenca também as formas como os jovens podem ajudar a Igreja a ser mais santa, e pega precisamente no exemplo dos abusos sexuais, que tem abalado a Igreja ao longo dos últimos anos.

Notando que a questão dos abusos apenas tem afetado uma minoria dos padres, o Papa pede aos jovens que coloquem os seus olhos na maioria que é fiel. “Em todo o caso, quando virem um sacerdote em risco, porque perdeu a alegria do seu ministério, porque procura compensações afetivas ou se enganou no caminho, atrevam-se a recordá-lo do seu compromisso com Deus e com o seu povo, anunciem-lhe o Evangelho e encorajam-no a manter-se no bom caminho.”

“Assim prestam uma valiosa ajuda para algo que é fundamental: a prevenção que permite evitar que se repitam estas atrocidades. Esta nuvem negra torna-se também um desafio para os jovens que amam a Jesus Cristo e à sua Igreja, porque podem contribuir muito para curar estas feridas se puserem em jogo a sua capacidade de renovar, de reclamar, de exigir coerência e testemunho, de voltar a sonhar e de reinventar”, conclui o Papa.

“Não se abandona a mãe ferida”

É neste espírito que o Papa pede aos jovens que não se deixem abater pelas falhas da Igreja. “Os nossos pecados estão à vista de todos. Estão refletidas sem piedade nas rugas do rosto milenar da nossa mãe e maestra.”

A Igreja, diz Francisco, “caminha como é, sem se sujeitar a cirurgias estéticas. Não tem medo de expor os pecados dos seus membros, que alguns deles às vezes tentam esconder, diante da luz ardente da Palavra do Evangelho que limpa e purifica”.

Esta não é a altura de abandonar a Igreja, pelo contrário, porque “não se abandona a mãe quando está ferida” e “os jovens podem ajudar muito mais se se sentirem de coração parte do ‘santo e paciente povo fiel de Deus’”, diz o Papa, acrescentando que “será justamente este santo Povo de Deus que nos livra da praga do Clericalismo, que é terreno fértil para todas estas abominações”.

Noutra passagem da exortação o Papa volta a insistir na importância de serem os jovens a ajudar a Igreja “a manter-se jovem, a não cair na corrupção, a não desistir, a não se orgulhar, a não se converter em seita, a ser mais pobre e testemunhal, a estar próxima dos últimos e dos descartados, a lutar pela justiça, a deixar-se interpelar com humildade. Eles podem conferir à Igreja a beleza da juventude”.

Francisco não deixa de sublinhar que a juventude é mais do que apenas uma fase etária, podendo também ser uma questão de atitude, e faz uma confissão. “Em cada momento da vida poderemos renovar e acrescentar a juventude. Quando iniciei o meu ministério como Papa, o Senhor ampliou-me os horizontes e ofereceu-me uma juventude renovada. O mesmo pode suceder a um casamento de muitos anos ou a um monge no seu mosteiro. Há coisas que precisam de «assentar» com os anos, mas esse amadurecimento pode conviver com um fogo que se renova, com um coração sempre jovem”

A exortação apostólica pós-sinodal que foi publicada esta terça-feira é composta por nove capítulos, incluindo orientações para a pastoral juvenil, uma listagem de santos jovens que podem servir de inspiração, recomendações para que os jovens não se deixem manipular e ainda uma emocionada descrição do amor de Deus.