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“Abrir um museu no Brasil durante a pandemia é um grande desafio”

30 jul, 2021 - 06:47 • Maria João Costa

Seis anos depois do incêndio reabre, em São Paulo, o Museu da Língua Portuguesa. A memória do fogo e a dimensão lusófona da língua portuguesa são alguns dos conteúdos do renovado espaço. A Renascença entrevista a diretora do museu.

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As portas do renovado Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, no Brasil reabrem este sábado ao público com a presença de diversos chefes de Estado, entre eles Marcelo Rebelo de Sousa de Portugal e os presidentes de Cabo Verde e Moçambique. Instalado na histórica Estação da Luz, o Museu sofreu obras de reconstrução, depois do incêndio que destruiu parte do espaço em 2015.

Em entrevista ao programa Ensaio Geral, da Renascença, a partir do Brasil, a diretora explica que os novos conteúdos são marcados pelas dimensões lusófona e antirracista. Marília Bonas afirma que “abrir um museu no Brasil, durante a pandemia, é um grande desafio. Abrir um museu no Brasil, depois do ‘Black Lives Matter’, também é uma questão importante em termos de posicionamento”.

Reabre ao público este sábado, em São Paulo, no Brasil, o Museu da Língua Portuguesa. O edifício na famosa Estação da Luz foi reconstruído depois do incêndio que o destruiu, em parte, em 2015. Que alterações foram feitas nesta segunda vida, deste museu, Marília Bona?

O museu mantém o seu coração em termos de narrativa, de discurso museológico, mas tem uma atualização importante. Em relação à questão da Lusofonia temos uma nova área dedicada aos países falantes de língua portuguesa com curadoria de grandes nomes, como Mia Couto, José Eduardo Agualusa e outros grandes nomes da literatura em língua portuguesa.

De que forma é pensada a Lusofonia no Museu?

Temos a discussão do que representa a Lusofonia no mundo global de hoje. É uma nova camada da exposição. Temos também novas vozes, pequenos vídeos, na ‘Linha do Tempo’ que falam da história da língua portuguesa trazendo também contrapontos. Pensamos a questão da decolonialidade e do racismo, a questão da xenofobia e do preconceito linguístico. Além da perspetiva celebrativa da língua portuguesa, há também uma nova camada mais reflexiva. Convidamos o público a pensar também nas línguas de resistências que compõe esses falares diversos da língua portuguesa ao redor do mundo, as línguas indígenas, africanas e a influência delas, não só nos países colonizados de língua portuguesa, mas também como influencia Portugal, como é que essa troca se dá hoje, com as suas tenções e riquezas.

O museu abre na cidade do mundo com mais falantes de língua portuguesa. Abrir um museu no atual contexto de pandemia é um desafio?

Abrir um museu no Brasil, durante a pandemia é um grande desafio. Abrir um museu no Brasil, depois do “Black Lives Matter”, é também importante em termos de posicionamento. O Museu da Língua Portuguesa reabre muito conectado com o seu tempo.

O museu revela os diferentes sotaques de português que existem no Brasil. Fica instalado numa interface de transportes, onde passam diariamente milhares de pessoas. Haverá na memória deste museu ainda as marcas do incêndio de 2015?

Sim, o Museu da Língua Portuguesa fica numa estação ferroviária e no saguão principal que faz conexão com a estação, há uma viga sobrevivente do incêndio e ali vai haver uma placa em homenagem ao bombeiro que perdeu a vida nesse incêndio, evacuando o espaço. Além disso vamos ter uma exposição virtual sobre a história da Estação da Luz, onde nós estamos. Essa exposição também vai abordar o incêndio. Este foi o segundo incêndio que a estação sofreu. Essa história vai estar presente na exposição que estamos a desenvolver.

Haverá também uma homenagem ao arquiteto Paulo Mendes da Rocha que morreu este ano?

Isso. Pela primeira vez vai ser aberto ao público um terraço que tem uma visão bastante privilegiada dessa região onde estamos. Esse terraço dá para o Jardim da Luz. É uma vista muito bonita. No terraço vai haver uma homenagem ao arquiteto que concebeu essa adaptação do Museu da Língua Portuguesa dentro dessa estação histórica e também do museu que temos aqui na frente que é o Museu de Arte que é a Pinacoteca do Estado de São Paulo. É também um edifício histórico cuja adaptação foi feita pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha.

Há uma componente muito virtual nas novas exposições do Museu da Língua Portuguesa. Pergunto se também terão alguns objetos expostos?

Temos objetos físicos originais. Temos uma tijela Tupinambá que foi o primeiro grupo que teve contato com os Europeus durante a colonização. É uma tijela que é do século XVI que foi um empréstimo do Museu de Arqueologia e Etnologia, da Universidade de São Paulo. Temos também uma escultura africana, sem data definida e temos ainda uma escultura feita pelo artista e compositor Arnaldo Antunes homenageando a língua. Mas a maior parte dos objetos que temos na exposição principal, são réplicas que ajudam a dar uma dimensão tridimensional desses testemunhos. Os originais estão preservados noutras coleções.

A língua portuguesa é falada no mundo por 261 milhões de pessoas, é um património de gentes de diversas paragens do planeta. De que forma pode o museu ser um instrumento importante na afirmação do português, nomeadamente na ambição de ser língua oficial das Nações Unidas?

Há uma questão importante em relação ao preconceito linguístico, não só dos falantes, mas também nesses ambientes universitários, académicos e formais. Claro que o Museu, é também uma instância de advocacia da língua portuguesa no mundo inteiro. Temos previstas algumas parcerias com a Universidade do Porto e outras universidades portuguesas, além de universidades brasileiras, pensando no português também como uma língua do campo científico, além do campo político. Isso é algo bastante relevante para atuação do Museu da Língua Portuguesa.

Muito se tem falado de ser o Brasil o país onde está o Museu da Língua Portuguesa e de Portugal não ter ainda um museu dedicado ao seu idioma. Como é que a Marília Bona vê essa questão?

Portugal vai ter um museu da língua portuguesa, em Bragança! Estamos a acompanhar à distância o desenvolvimento dessa discussão. Mas a língua portuguesa não tem mais propriedade. O próprio José Saramago dizia isso. São os falantes que são os donos da língua, não são mais os lugares.

A valorização dessa ideia, dessa diversidade e o intercâmbio desses falares é algo central para o Museu. A questão da Lusofonia e o papel da Lusofonia aqui no Museu da Língua Portuguesa é bastante interessante e provocativa. Nesse sentido, a origem em termos linguísticos, toda a questão do galego e outras questões na origem da língua portuguesa são ainda muito debatidas em termos de maternidade e paternidade da língua. Isso é algo que trazemos para a discussão com o público, a partir de diferentes pontos de vista. Este é o Museu da Língua Portuguesa falada no mundo, com toda a sua diversidade. Estamos sempre apoiando outras iniciativas. Que venham muitos museus da língua portuguesa em muitos países falantes de língua portuguesa.


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