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Cardeal Jean Claude Hollerich

Migrantes muçulmanos não são ameaça, mas Europa deve "impor condições de integração"

13 ago, 2021 - 19:07 • Teresa Paula Costa

Em entrevista à Renascença, o arcebispo do Luxemburgo fala também sobre o polémico relatório Matic e da tensão entre UE e Hungria, por causa da aprovação de uma lei anti-homossexualidade.

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A vinda de imigrantes muçulmanos não é uma ameaça, mas a Europa não pode ser "ingénua" e deve impor "condições de integração", defende o cardeal Jean Claude Hollerich, arcebispo do Luxemburgo e presidente da Comissão das Conferências Episcopais da Europa (COMECE).

Em entrevista à Renascença, o cardeal que presidiu este ano às cerimónias do 12 e 13 de agosto, em Fátima, fala também da tensão entre a União Europeia e a Hungria, por causa da aprovação da lei anti-homossexualidade, e do polémico relatório Matic.

Muitos cristãos encaram as instituições europeias como sendo hostis aos seus valores. A aprovação do recente relatório Matic vem dar-lhes razão?

A aprovação do relatório Matic é algo muito doloroso. Nesse relatório também há coisas boas, mas sobretudo o que é o direito ao aborto é contra a liberdade de consciência, é uma coisa que lamento. Já o tínhamos dito antes da votação do relatório e dissemo-lo depois e também houve Conferências Episcopais que reagiram, e tiveram razão.

Na verdade, as pessoas que propuseram o texto fazem o trabalho para a direita. Porque muitos católicos pensam que, agora, é preciso votar nos partidos de extrema-direita que defendem os valores da vida. De certa forma, compreendo esse raciocínio, mas não partilho dele, porque o envolvimento pela vida por parte da Igreja se situa a muitos níveis.

O envolvimento pela vida são os refugiados, são os direitos dos trabalhadores, a ajuda ao desenvolvimento, e aí eu penso que a União Europeia faz coisas que nem sempre são más. Não é que tudo seja bom, mas o mundo sem a União Europeia seria um mundo mais perigoso. Se a União Europeia não existisse, nós teríamos os Estados Unidos, a China, a Rússia… seria um mundo com muitos mais confrontos.

Também há uma compreensão de certos valores cristãos no seio da União Europeia. Quando fizemos, por exemplo, as “guidelines” [linhas de orientação] da política exterior da União Europeia, também incluímos a liberdade religiosa nessas “guidelines”. Portanto, há muito de positivo a falar, mas é como por todo o lado, a realidade é complexa.

Mas penso que é muito importante que os católicos façam entender à direita o que pensam do relatório Matic e que eles veem esse relatório como uma “pequena catástrofe”.

Ainda há esperança para uma Europa unida em torno de valores cristãos, como queriam os seus fundadores?

A União Europeia é cristã como as sociedades. Ou seja, não é por haver menos cristãos no Luxemburgo ou em Portugal, na Alemanha ou em França que há eleitos europeus que não partilham mais os seus valores cristãos. Por isso, penso que não se deve procurar a culpa na União Europeia, mas na sociedade em si.

Acho que é preciso um grande movimento de evangelização, de missão. Não digo proselitismo, mas evangelização e diálogo para que possamos como cristãos, com outros que partilham dos nossos valores, estar presentes para salvaguardar uma Europa o mais cristã possível.

Penso que nunca teremos uma Europa completamente cristã, mas ao menos poderemos ter alguns elementos cristãos no interior dessa política europeia. Mas não é que a União Europeia seja má e que nós sejamos os bons. Isso reflete a sociedade dos Estados-membros europeus.


Acha que a onda de imigração, sobretudo de países muçulmanos, é uma ameaça à Europa?

Não! Não! Nós seríamos muito fracos se nos sentíssemos ameaçados por um pequeno número que permanece uma minoria. Naturalmente, é preciso também impor condições de integração. Não devemos ser ingénuos e dizer que a Europa pode tolerar tudo e aplaudir tudo. Não! Querem vir para a Europa? Há regras nesta sociedade europeia e é preciso cumpri-las se querem ficar. Mas a maior parte dos muçulmanos que conheço são pessoas muito boas, de moral elevada e são também pessoas que mudam na sociedade.

Também há migrantes que vêm por razões religiosas. Conheço um jovem muçulmano que vem de um país que não é considerado perigoso, mas veio porque queria tornar-se cristão e, no seu país, ele arriscaria ir para a prisão. E ser ostracizado pela sua família. Então, veio sozinho, para o Luxemburgo. A mulher dele divorciou-se dele porque não queria um marido que não fosse muçulmano e ele perdeu o contacto com os seus dois filhos, mas fez uma experiência de Deus e quis tornar-se cristão.

Por isso, a situação dos migrantes é muito complexa. E quando contamos histórias é preciso tomarmos atenção, porque há histórias muito diferentes. É preciso ver a complexidade da situação.

Há uma grande tensão entre a maioria dos países da UE e a Hungria e, em menor grau, a Polónia. Como é que olha para estes países e os seus regimes?

Penso que falhamos o diálogo no momento do alargamento da União Europeia. Fomos muito ingénuos ao aceitar esses países pensando que eles são como nós. E agora vemos que não é esse o caso.


Penso que é muito perigoso ir contra esses governos. São governos eleitos que representam o que pensa a maioria da população. E tenho de aceitar que eles pensem de maneira diferente de mim próprio. É assim numa família de povos, como é a Europa. É preciso aceitar determinadas diferenças e também não absolutizar as posições porque a França também era uma república muito autoritária em certa altura.

Assim, há elementos que são semelhantes, mas para nós é passado, enquanto que, para eles é o presente. Isso não quer dizer que devo estar de acordo com tudo o que se faz. Se, por exemplo, há uma lei sobre as escolas e a homossexualidade, em que estiveram envolvidos os pais e não apenas o Estado, penso que é uma coisa boa, mas se nessa mesma lei há discriminação e ela conduz à discriminação, então é mau.

Por isso, é muito difícil dar uma ideia clara e simples dessa lei, é preciso analisá-la e estar num diálogo honesto. Por vezes também temos de dizer que, para nós, ser cristão é seguir o evangelho de Jesus. Não é propagar uma cultura. Mesmo que goste muito dessa cultura.

De que forma Nossa Senhora de Fátima, e a mensagem de Fátima, ainda são relevantes para a Europa?

São relevantes porque, para mim, Fátima é a abertura do céu. É a Luz. Gosto muito, nos cânticos, da expressão “Maria cercada de Luz”. Essa expressão, em si, mostra uma transcendência que a Europa perdeu.

A Europa tornou-se consumidora, fortemente secularizada e penso que a mensagem de Fátima nos recorda que o mundo é maior. Que a presença de Deus, manifestada pela Nossa Senhora, mostra um mundo de cores diferentes. De uma beleza diferente, maior, de uma liberdade interior, e eu penso que é genial. É precisamente a mensagem de que o nosso tempo precisa.

Qual é a importância de Fátima no Luxemburgo?

É muito grande! Logo na nossa comunidade portuguesa temos uma grande devoção a Nossa Senhora que veneramos como consoladora dos aflitos, patrona do Luxemburgo, a estátua que está na Catedral, mas ela não é exclusiva.

Também temos muitas igrejas com imagens de Nossa Senhora de Fátima, tivemos no 50.º aniversário a Virgem Peregrina, tivemos um maravilhoso concerto de fado cristão na catedral e foi belo também porque valorizou os nossos irmãos e irmãs de Portugal no Luxemburgo.

Por serem orgulhosos da sua cultura e também da sua cultura religiosa. E isso é muito importante. Somente podemos viver a integração quando somos orgulhosos da nossa própria cultura. De outra forma, não funciona. E penso que os portugueses têm todas as razões para estarem orgulhosos da sua cultura e Nossa Senhora de Fátima é um exemplo.

Qual é a sua relação com a grande comunidade portuguesa no Luxemburgo?

Temos por todo o lado procissões de Nossa Senhora de Fátima. Temos peregrinações nacionais a Wiltz para a Festa da Ascenção e entre 15 mil a 20 mil pessoas que participam por ano. É uma manifestação da fé e ao mesmo tempo, da identidade portuguesa, e é um exemplo para os outros católicos do Luxemburgo.

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