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Literacia mediática

Vozes de Gaia. A redação sénior que é uma escola de cidadania ativa

09 ago, 2021 - 08:00 • André Rodrigues (reportagem) , João Malheiro (vídeo)

Projeto do jornal "Público", INATEL e Câmara de Gaia ajuda "jornalistas" com mais de 55 anos a recolher informação credível, a cruzar fontes e a distinguir notícias verdadeiras das chamadas 'fake news'.

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Vozes de Gaia. A redação sénior que também é uma escola de cidadania ativa
Vozes de Gaia. Primeira fase do projeto teve 25 participantes. Em setembro vão ser 60.

“A sua rotina é aborrecida? Esta é uma lufada de ar fresco!”

Este poderia ser o 'slogan' de um anúncio de emprego na área do jornalismo. Só que não é.

O 'Vozes de Gaia' é um jornal digital, feito por pessoas com mais de 55 anos, numa parceria entre a Câmara de Gaia, o Inatel e o jornal 'Público'.

O objetivo nem é, tanto, formar novos jornalistas, mas, sim, ajudar os participantes a perceberem como funciona uma redação, como se fazem e para que servem as notícias, como se deteta uma informação manipulada.

“Sempre fui crítica e verifico e agora qualquer informação vou logo verificar, não republico nada nas minhas redes sociais até confirmar”, diz à Renascença Michelle Benarchon, nascida em França há 64 anos, mas com um domínio perfeito do português, graças aos anos em que viveu no Brasil.

Michelle chegou há quatro anos a Portugal e interessou-se pela vida do concelho onde reside.

Profissional na área do turismo, Michelle declara-se “interessada por tudo o que tem a ver com vídeo, filmes e rádio” e confessa que, após três meses de workshops bissemanais na redação do 'Vozes de Gaia', nos Carvalhos, percebe um pouco melhor o trabalho dos jornalistas e dá-lhes o devido valor.

“Ninguém se dá conta do trabalho de um jornalista. Levo uma imagem muito mais positiva do que tinha antes”, diz.

Gostar de consumir notícias é uma coisa. Compreender o processo que as leva ao público é o passo que estes participantes decidiram dar para se tornarem mais e melhor informados.

No universo digital, há uma permanente tensão entre factos e ficção.

Michelle conhece bem a realidade das chamadas ‘fake news’ no Brasil, onde a sociedade é mais permeável ao fenómeno, dadas “as características do eleitorado”.

Um cenário que contrasta com o da França, onde a opinião pública é muito mais exigente e “é a favor do contra”.

Olhando para Portugal, Michelle diz ter encontrado um surpreendente equilíbrio.

“Eu estive 40 anos na França e a sensação com que se fica quando vimos do exterior é de que temos uma ideia errada dos portugueses. Os portugueses conhecem muitas coisas que nem imaginamos”, reconhece.

Jornalismo. Sem estados de alma. Apenas factos

Francisco Silva tem 60 anos, trabalhou toda a vida em artes gráficas. Quis perceber como funciona a máquina que produz as páginas que folheia todos os dias, porque, segundo diz, gosta de fotografia e de fotojornalismo. "A ideia de entrar para o projeto foi perceber como funciona este meio”.

Acima de tudo, [o objetivo] foi explicar-nos como lemos as notícias, como podemos investigar para ver até que ponto são verdadeiras ou falsas. Depois disso fizemos vários exercícios como preparar artigos, fazer trabalhos de fotojornalismo. Fomos inclusivamente para a rua fazer reportagem, falar com pessoas e fotografar” conta à Renascença.

A técnica de escrever notícias tem regras. Uma delas é a distinção clara entre factos e opiniões.

Francisco confessa que, no início destes workshops, cedia à tentação de escrever artigos para si, expressando opinião, sem ter em conta de que isso, por si só, não dá relevância ao conteúdo nem informa o público.

“Isso foi falado, porque nós, por falta de formação jornalística, damos a nossa opinião. Eu fiz um trabalho sobre a batalha de Grijó e acabei por fazer um artigo para mim, sem consultar fontes”.

“Foram sessões muito divertidas”

É aí que entra a experiência do coordenador do projeto. Mário Barros é jornalista do 'Público', é chefe de redação do 'Vozes de Gaia' e faz um balanço muito positivo dos últimos três meses, por considerar que os objetivos do projeto foram cumpridos.

“Com o passar do tempo, fomos dizendo àqueles que tinham reservas e diziam que não tinham tempo para fazer uma notícia, que se preocupassem mais com o conteúdo do que com a forma. Porque era natural que sentissem esse receio de fazer algo que nunca tinham feito antes”.

E de todos os desafios, o maior e mais gratificante foi criar nos participantes a consciência para o perigo das informações imprecisas ou manipuladas com intenções perversas, as chamadas ‘fake news’ que, não sendo, na maior parte dos casos, uma adulteração provocada pelos jornalistas, circulam no universo digital, propondo interpretações, omitindo detalhes importantes ou acrescentando dados falsos para que os conteúdos sirvam determinados propósitos.

“Apresentamos vídeos, fotos manipuladas, notícias com links que davam para outros sites. Um dos exemplos foi da revista Forbes e estava lá uma notícia apanrentemente toda direitinha e, depois, tinha um link para um site onde se comprava cripto-moedas”, exemplifica o chefe de redação do 'Vozes de Gaia'.

Para Mário Barros, este foi o principal cuidado incutido aos participantes, para que “fiquem mais alerta”, porque “o propósito da cidadania ativa na vida do dia a dia é muito simples de ser concretizado se as pessoas estiverem despertas para isso”.

Em agosto, o 'Vozes de Gaia' fecha as portas da redação, mas o jornal em formato de papel chega às bancas esta segunda-feira, juntamente com o 'Público'.

O projeto regressa em setembro e vai durar, pelo menos, até outubro de 2022.

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