Coronavírus
Enfermeiro descreve “cenário dantesco, autenticamente de guerra”
19 jan, 2021 - 17:26 • Pedro Mesquita
Revoltado com os episódios de pessoas que furaram o confinamento nos últimos dias, Alexandre Fonseca diz que perante a mortandade a que se assiste nos hospitais quem insiste em prevaricar só pode ser considerado homicida.
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É um cenário “dantesco” e “de guerra” que o enfermeiro Alexandre Fonseca descreve no hospital Garcia de Orta, em Almada, onde trabalha.
No dia em que morreram 218 pessoas de Covid-19 em Portugal, batendo todos os recordes até agora, este enfermeiro pinta um retrato de exaustão entre os profissionais que cuidam dos doentes.
“O cenário é dantesco, honestamente é dantesco. É um cenário de guerra, autenticamente de guerra”, diz Alexandre Fonseca.
“Os recursos estão a escassear bastante. Estamos a falar de recursos humanos. Saímos derrotados do serviço, estourados. Vamos a casa dormir e voltamos.”
“Temos já imensos colegas doentes. Temos de nos desmultiplicar em horas seguidas de trabalho, para se conseguir prestar os cuidados da melhor forma possível, para tentarmos chegar sempre a toda a gente”, explica.
O problema, na experiência deste enfermeiro, não são os recursos materiais, mas mesmo o cansaço do pessoal. “Apesar de as coisas não abundarem o hospital tem feito um esforço hercúleo para nos fazer chegar as coisas. Pontualmente falta uma coisa ou outra, mas acabamos sempre por arranjar e não é por aí que tem faltado cuidado.”
No seu caso, sublinha, não houve nenhum caso de ser preciso oxigénio, por exemplo, e não haver. “Felizmente, nos doentes que eu tive isso não aconteceu. Não posso precisar no resto do hospital, mas no sítio onde eu tenho trabalhado o oxigénio chega por rampa e não em garrafas e até agora não faltou. E em termos de ventilador usamos ventiladores não invasivos. Tínhamos um stock de quatro ou cinco ventiladores não invasivos, está tudo emprestado, e os doentes que têm precisado felizmente têm conseguido e graças a Deus têm recuperado depressa e imediatamente esses ventiladores aparecem para outro doente.”
Confrontado com as descrições feitas por alguns médicos, incluindo o deputado do PSD Ricardo Baptista Leite, de que já se chegou ao ponto de ter de escolher quem recebe ajuda ou quem é deixado sem assistência e acaba por morrer, o enfermeiro confirma que se passa o mesmo no Garcia de Orta. “É claro que sim. Por mais que a gente se esforce... Não se consegue chegar a todo o lado, principalmente da forma como a gente quer.
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Alexandre Fonseca deixa por isso um apelo a todos os cidadãos para que cumpram com as regras de confinamento. “Se as pessoas tivessem a noção o que é ser cuidadas numa sala de espera Covid, num quarto isoladas com Covid, precisam de qualquer coisa e tocam a campainha e nós demoramos até sete minutos a fardar-nos para podermos ir ao doente... Têm de aguardar que a gente se vista, que cheguemos lá com aqueles fatos horrorosos, parece que estamos com lepra... As pessoas não têm essa noção.”
“Quando isso lhes passa pela porta, aí vão perceber que afinal isto é mau e está a matar muito, mas muito mesmo. E é uma falta de respeito, uma falta de cidadania, as pessoas prevaricarem e andarem a brincar e a gozar”, sublinha.
O enfermeiro recorda o episódio descrito por Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais, na segunda-feira, de que a polícia terá apanhado pessoas a passear na rua com trela na mão, justificando assim o facto de estarem fora de casa com a necessidade de passear um animal, dizendo que este tinha fugido e que estavam à procura dele.
“Andar a passear trelas?! Isso é um atentado aos direitos de todos os outros que estão em casa a passar fome porque não podem trabalhar, que estamos a trabalhar nos hospitais, que estamos a ficar doentes, que estamos a ficar desesperados de cansaço. Se eu continuo a prevaricar, então o que sou? Só posso ser um homicida”, conclui.
Portugal atravessa agora a pior fase da pandemia de Covid-19, tendo batido esta terça-feira o recorde de mortos no espaço de 24 horas. O Governo impôs novas medidas restritivas, que entram em vigor na quarta-feira.
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