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Pandemia Covid-19

“Médicos exaustos e desmotivados. As pessoas são as mesmas e as necessidades duplicaram”

03 nov, 2020 - 12:59 • José Pedro Frazão

Presidente da Comissão de Qualidade e Assuntos Profissionais da Federação Europeia de Medicina Interna diz que os médicos, que tratam a maioria dos doentes internados, “parecem de uma especialidade invisível” por contraste com o “protagonismo” dos clínicos de saúde pública e cuidados intensivos. Luís Campos diz que as medidas do Governo poderão chegar tarde demais e pede uma mudança no sistema que alivie a pressão sobre os hospitais.

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Os médicos estão física e mentalmente exaustos a lutar contra a pandemia nos hospitais portugueses. O alerta é de Luís Campos, presidente da Comissão de Qualidade e Assuntos Profissionais da Federação Europeia de Medicina Interna e ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. Convidado do programa "Da Capa à Contracapa" para refletir sobre a resposta à pandemia, este clínico assegura que a desmotivação e o cansaço estão instalados nas enfermarias nesta segunda onda pandémica.

Neste momento, os internistas estão cansados. Estão exaustos e desmotivados. As pessoas não fazem ideia do que representa o cansaço físico e emocional de estar quatro ou cinco horas dentro de uma enfermaria COVID com aqueles equipamentos de proteção individual, sem poder ir à casa de banho, sem poder beber água, a lidar com doentes angustiados que não têm visitas das famílias e com famílias angustiadas por não conseguirem ver os doentes”, desabafa Luís Campos que exerce medicina interna no Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, onde está integrado o Hospital São Francisco Xavier.

O especialista recorda que no início da primeira onda pandémica houve uma grande capacidade de mobilização de muitas especialidades que ajudaram no embate com a sobrecarga de doentes. A capacidade, entretanto, esfumou-se e 85% dos doentes internados ficaram a cargo dos internistas.

Nós não temos mais capacidade. As pessoas são as mesmas e as necessidades duplicaram. No serviço de urgência tivemos que duplicar os circuitos e, no entanto, o número de internistas é o mesmo. Isso é algo que devíamos ter acautelado para a segunda vaga. Infelizmente não o fizemos e nem sequer o estamos a fazer neste momento. Todo o protagonismo desta luta está assumido pelas pessoas da saúde pública e de cuidados intensivos. E os especialistas, enfermeiros e auxiliares que tomam conta destes 85% de doentes parecem de uma especialidade invisível para doentes que são também invisíveis”, afirma o médico que liderou a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.

Hospitais sem rede em tempo de pandemia

Luís Campos sublinha ainda o trabalho que recai sobre os internistas para resolver os problemas sociais dos doentes. Sustenta que 20% dos doentes COVID estão internados não por razões médicas, mas porque não terem condições para fazerem a quarentena em casa e argumenta que se existissem alternativas em número suficiente a jusante dos hospitais, estes estariam mais aliviados e aumentariam muito a sua capacidade de resposta.

“Os hospitais estão transformados nos centros de resolução dos problemas sociais dos doentes”, afirma o especialista em medicina interna, que critica a organização fragmentada dos cuidados de saúde, sem funcionamento em rede. “Os hospitais não falam com os cuidados primários, não têm articulação com os cuidados continuados, com os cuidados paliativos e com o sector social”, acrescenta Luis Campos que garante que cada hospital “funciona por si próprio, sem uma gestão regional das capacidades instaladas”.

O convidado do “Da Capa à Contracapa” argumenta que o intervalo entre as ondas pandémicas deveria ter sido utilizado para corrigir o sistema perante um problema complexo sem uma solução simples.

“Temos a sorte de termos um bom SNS. Mas os hospitais na primeira linha poderão soçobrar se não se atuar a montante e a jusante, com políticas que diminuam o afluxo as urgências através das medidas de prevenção onde os comportamentos pessoais são muito importantes”, diz Luis Campos , coautor de um recente artigo na revista científica da Ordem dos Médicos, onde criticava a falta de recursos para o Inverno onde o novo coronavírus se cruzará com outras infeções respiratórias, antecipando um possível colapso das urgências hospitalares.

Colocar a Medicina Interna a articular a resposta hospitalar

Diz que as medidas preparadas pelo Ministério da Saúde ainda não chegaram ao terreno. O plano Outono-Inverno tarda a sair do papel, denuncia Luís Campos que assegura que as medidas não foram operacionalizadas e são tardias.

O clínico receia que o anúncio por António Costa da contratação de mais enfermeiros e a abertura de concurso para mais internistas possa não vir a tempo das semanas mais críticas. O especialista em medicina interna sugere que os doentes com sintomas não graves de infeções respiratórias sejam observados não nos hospitais, mas nos cuidados primários.

Os doentes não urgentes deviam ter sido vistos nos cuidados primários. Isso não aconteceu e tarda em acontecer. Devíamos ter aproveitado este período para mudar os hospitais. O modelo que preconizamos é uma separação entre doentes programados e agudos, em que estes últimos sejam vistos por uma especialidade que tem tomado conta da maior parte dos doentes COVID como a Medicina Interna, que deve articular a intervenção das outras especialidades e não enviar os doentes diretamente para a cardiologia ou pneumologia. Já não é um modelo adequado para a maior parte dos doentes internados que são idosos, complexos, crónicos e com múltipla morbilidade”, propõe o convidado do programa “Da Capa à Contracapa”, onde lembra que um dos programas com maior sucesso no SNS é a hospitalização domiciliária, que deve ser incrementada.

Lembra ainda, que ao contrário do sector privado, tem havido alguma inércia em retomar a catividade normal não-COVID no sistema público.

Há rastreios parados, exames parados, consultas paradas. É uma das coisas que me têm impressionado no SNS, uma certa inércia na retoma da atividade. Vejo, por exemplo, os grupos privados de saúde com as clinicas e os hospitais a funcionar em pleno desde o fim de abril . E nós mesmo em hospitais que não são COVID ainda não reassumimos a retoma dos cuidados destes doentes. As consequências disto poderão ser inimagináveis”, avisa o antigo presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna no programa da Renascença em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

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