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Incêndios, habitação, saúde. Os números de 2024 em três crises de sempre

27 dez, 2024 - 07:00 • Salomé Esteves

Em três crises que marcam as notícias todos os dias, todos os anos, em que é que este ano foi diferente? A Renascença foi à procura dos números marcados pelo fogo, por alojamentos cada vez mais caros e pela morte à espera de socorro.

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Menos incêndios, mais área ardida. Mais pré-avisos de greve, menos faltas por greves. Mais apoios, alojamento mais caro. No que toca a incêndios, habitação e saúde, três crises herdadas de anos anteriores, 2024 foi um ano especial? Não particularmente, mas em quase nada foi melhor do que o ano passado.

Os incêndios, a saúde e a habtação têm, de uma maneira ou de outra, aparecido em todas as últimas Radiografias – como chama a Renascença à revista de acontecimentos do ano - graças a protestos e manifestações, semanas de caos e recursos escassos. Cumprindo-se a tendência, hão de regressar em 2025, 2026, 2027...

O ano mais quente (outra vez)

Na última década, o clima tem tomado conta das preocupações das novas gerações, dos destaques noticiosos e das políticas europeias – mais do que nas nacionais. Todos os anos, comunidades um pouco por todo o mundo são assoladas por cheias, furacões, seca extremas – um sem-número de tragédias climáticas, de vítimas mortais, feridos e desalojados.

2024 foi o ano mais quente de que há registo. Foi também o primeiro ano com uma diferença de 1,5ºC das temperaturas registadas antes da Revolução Industrial, entre 1850 e 1900. Acontece que este recorde foi batido há muito pouco tempo. 2023 foi o segundo ano mais quente de que há registo, depois de 2022.

No verão, Portugal resigna-se todos os anos aos incêndios que se têm provado inevitáveis. Num ano que, desde janeiro, se previa quente acima da média, deitavam-se os foguetes antes da festa em agosto:2024 estava a ser um ano de pouco fogo. Isto até setembro.

Ainda que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) celebre uma queda de 47% no número de incêndios rurais que deflagraram este ano, não deixa de apontar uma subida de 22% nos hectares de área ardida. Houve menos incêndios em 2024, mas consumiram muito mais terra.


Um metro quadrado por mais do dobro do salário mínimo

Cada pessoa tem “o direito de todos a uma habitação condigna”, dizem as Nações Unidas. Mas, chegado 2024, “Portugal tem uma das maiores crises habitacionais da Europa”. A conclusão, e o título, é de um estudo da Causa Pública do início de dezembro.

Mas, enquanto “um modesto primeiro andar” era a grande saudade dos Xutos e Pontapés, em 1988, para milhares de portugueses, em 2024, a noção de comprar – ou de arrendar – uma casa varia entre um sonho e um luxo.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) o preço médio de um metro quadrado em Portugal estava, em novembro, nos 1740 euros mensais. Feitas as contas, este valor é mais do dobro do salário mínimo nacional (820 euros) e está 200 euros acima do salário médio que subiu, no final deste ano, para 1528 euros. Acontece que, face aos salários de 2023, 65% dos jovens e 70% das mulheres recebem remunerações abaixo dos 1000 euros.

Em junho, a arquiteta Helena Roseta dizia à Renascença que Portugal tem "um milhão e tal de casas a mais”. O problema, explica é que há “muitas casas vazias em sítios onde ninguém mora e muitas casas vazias onde a especulação é enorme”.


Desde o ano passado, têm sido introduzidas medidas para colmatar a crise da habitação. Os apoios ao alojamento para famílias estudantes e professores deslocados entraram em vigor e foram impostas restrições ao Alojamento Local. Mas estas medidas não estão a controlar os preços.

Como acontece com as casas, o preço médio de um quarto para arrendamento continua a aumentar. No início deste ano letivo, em setembro, um quarto custava, em média, 485 euros em Lisboa, 390 euros no Porto, 340 em Aveiro, 325 em Braga e 270 em Coimbra. Só em Lisboa, o custo subiu 30 euros num ano.

Além disso, parte das medidas para o Alojamento Local até acabou por ser revertida este ano. No último ano, não houve uma redução de registos de Alojamento Local em Portugal, mas um aumento. Enquanto, em 2023, eram 119.634 os AL registados em Portugal, em 2024, esse número subiu para 120.619.

O “verão caótico” e o “inverno mau” dos hospitais

No final de 2023, falava-se do orçamento histórico na Saúde. O Orçamento do Estado de 2024 colocava um bolo de 15 mil milhões de euros no total. Só para o SNS o aumento era de 1,2 mil milhões de euros em relação a este ano.

E não é apenas nos bolsos, mas também nos trabalhadores que se vê uma evolução. Segundo o portal da transparência do SNS, em novembro deste ano, o Serviço Nacional de Saúde tinha quase 151 mil trabalhadores, longe dos cerca de 135 mil de há cinco anos.

Apesar disto, a Saúde continua envolta em discussões, controvérsia e consequências. Em 2024, a ministra Ana Paula Martins, que assumiu o cargo depois das legislativas de 10 de março, teve de responder por urgências fechadas, falhas no INEM, a linha do SNS para grávidas, entre outros.

Do lado dos trabalhadores, como em 2023, as greves continuam, por melhores condições de trabalho.

Para 2025, já há promessas de novas greves às horas extraordinárias na Saúde, apoios aos lesados nos incêndios de setembro e um referendo à Habitação em Lisboa.

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