Web Summit 2024
Terminou mais uma Web Summit. Ainda vale a pena ou é um evento de nicho?
15 nov, 2024 - 11:00 • Alexandre Abrantes Neves
Entre as mais de três mil startups participantes, muitas continuam a ver os benefícios da cimeira, nomeadamente em arranjar financiamento. Mas também há queixas, desde os transportes ao destaque dado à inteligência artificial. Organização garante que o evento "não é de nicho" e prefere desfocar-se dos números menos positivos do ano passado.
Parecem ser água e azeite. Quem está do lado de fora e de dentro da Web Summit aparenta não se misturar. À porta do pórtico de entrada da cimeira, há muitos que pensam como Margarida, de 22 anos: o evento “ajuda o comércio e a zona”, mas isso não chega para chamar a atenção. “Eu não sou investidora nem faço parte de uma startup, não sinto que se aplique a mim, é cada vez mais um nicho.”
Do lado de dentro, a visão é oposta. Entre as bancas de startups, da saúde às finanças, todos dizem que a aposta na Web Summit “ainda vale muito a pena”, tanto para oportunidades de “networking” como para arranjar financiamento. E nem o barulho de mais de 70 mil pessoas torna essa missão mais difícil - desde que se faça o trabalho de casa.
“É um evento para o qual tens de te preparar bem. Conversas com pessoas do mundo todo, numa velocidade muito, muito rápida. Mas, se vieres organizado, a Web Summit consegue conectar as startups, orientar investidores, criar uma conexão que ajuda o negócio das pessoas que estão a ser visitadas”, defende Felipe Augusto, da Wellwind, uma startup que se dedica ao negócio de expatriação e imigração de outras empresas.
Conexão a conexão, as empresas vão ficando cada vez mais convencidas a voltarem para o ano, “se a perceção que temos do impacto na nossa empresa não for má”. Para isto, ajuda muito o acompanhamento feito pela equipa da cimeira tecnológica no crescimento de cada empresa.
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Há dois anos, Fabiano Santos fundou a Kriba (que se dedica a investigar formas de identificar infeções no nosso corpo em poucos segundos) e a Web Summit foi o primeiro pionés a entrar no quadro de cortiça como objetivo a cumprir. Chegou como beta (uma startup já estabelecida no mercado) e para o ano já discutiu com a organização a possibilidade de voltar como “growth”.
É um percurso que se antecipa em crescendo, mas Fabiano teme que Lisboa não tenha capacidade de o acompanhar.
“Acho que o evento já não tem mais capacidade para se expandir. Primeiro, é preciso mais organização. Estão aqui 70 mil pessoas e querem mais, mas os pavilhões estão a abarrotar... Esta semana é caótica, para entrar e sair de transportes fica difícil. Estás motivado para a cimeira, mas isto também conta”, assinala.
Medir as filas para o Metro ou o tempo de espera para chamar um TVDE é difícil, mas há outros números que podem preocupar a organização e as estimativas (definidas no contrato que dura até 2028) de que a cimeira traria mais de 300 milhões de euros de retorno a Lisboa por ano.
No ano passado, o inquérito da Associação Portuguesa de Hotelaria mostrava uma quebra de mais de 30 pontos percentuais na taxa de ocupação.
Em declarações à Renascença, Ricardo Lima, responsável pela área das startups e investidores, não avança nenhuma explicação para estes dados e recusa que este seja um mau sinal do que está para vir.
“Nós temos tido um ano incrível. Tivemos a primeira Web Summit na região Mina, na Web Summit Catar, tivemos a Web Summit no Rio de Janeiro. (...) E temos um número recorde de startups, de participantes este ano aqui em Lisboa. Por isso, não é um sinal menos positivo do nosso lado”, aponta.
Na rede social X, o fundador e regressado CEO, Paddy Cosgrave, falava do “melhor ano de sempre” da cimeiras tecnológicas, com subidas nas receitas de 30%. O número final ainda está por revelar e por esclarecer fica também se a organização acompanha o sonho de Marcelo Rebelo de Sousa em ter 100 mil visitantes na cimeira tecnológica. “Isso vais ter de perguntar ao Presidente da República. Eu só estou focado em trazer o maior número de startups”, remata Ricardo Lima, entre risos.
Demasiado foco à Inteligência Artificial?
Este ano, a Web Summit assumiu como objetivo tornar a cimeira “mais intimista”. Para isso, criou os eventos “meetup”, onde se reuniam as startups de um tema em específico. A partir da aplicação para telemóvel (“a melhor e a mais intuitiva de sempre”), as empresas podiam inscrever-se nos eventos. Mas, neste contacto entre startups, a organização ainda pode melhorar e fazer uma filtragem melhor, defende quem a usou.
Estão aqui 70 mil pessoas e querem mais, mas os pavilhões estão a abarrotar... Esta semana é caótica, para entrar e sair de transportes
“É difícil perceberes quais são as pessoas certas para estares em contacto, é um pouco enganador. No nosso caso, havia muita gente a tentar vender-nos coisas e não é isso que procuramos. Um filtro seria útil para nos focarmos nas conversas que queremos ter”, sugere Max Daily, da startup Nuke from Orbit.
Entre as bancas de alphas e betas, esta é uma queixa que vai saltando de quando em vez e até em conversa com outras empresas. Entre o burburinho empreendedor que se vai ouvindo nos pavilhões da Feira Internacional de Lisboa (FIL), Amanda Frota ouve muitas ideias para “melhorar ainda mais” a cimeira.
Já participou numa edição da Web Summit no Brasil e esta é a primeira vez que vem à “edição mãe, que é muito maior”. Não esconde o entusiasmo, mas também lamenta o destaque “tão óbvio” dado à inteligência artificial e que “dificulta” a vida a startups de outras áreas.
“Isto é cansativo, na verdade”, aponta, ressalvando que é a perspetiva de alguém que trabalha numa startup de telecomunicações. “Continuamos a falar muito do pontos negativos das preocupações, de que vai ser o apocalipse, que vão roubar nossos empregos. É um tema que, se for para ser, queremos ver mais coisas além dos riscos da inteligência artificial”, explica à Renascença.
Sobre o modo de funcionamento da cimeira, Ricardo Lima clarifica apenas que o tema em destaque no próximo ano “vai depender das tendências globais" e do que disserem os dados e o feedback que receberem dos participantes, que é, "até agora, é muito positivo”.
Pela primeira vez, números
Era uma das críticas mais comuns à Web Summit e, este ano, o mistério foi desfeito. Pela primeira vez, há números concretos do impacto da Web Summit nas startups que cruzam o MEO Arena e a FIL durante estes três dias. “Sentíamos falta. É uma forma de conseguirmos desenhar os ‘outputs’ que saem daqui e que nos podem fazer voltar”, aplaude Giacomo Gentili, da Pack, dedicada ao desenvolvimento de recursos humanos.
O relatório elaborado em conjunto com a consultora Crunchbase (dedicada a startups) mostrou que, “nos últimos três anos, desde 2021, as startups que participaram numa Web Summit levantaram, em média por ano, cinco milhões e meio de dólares. Isto versus startups que não participaram, que levantaram à volta dos 3,3 milhões”.
São números que deixam startups e organização felizes e, por isso, o "raio-x" aos participantes e ao impacto da cimeira vai continuar e ser aprofundado nos próximos anos. Para já, e sobre a edição que agora termina, há já a destacar a alteração no perfil das startups que montam uma banca e vão arranjando investimento ao som dos 16 palcos da Web Summit.
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“Vimos um crescimento no número de startups de Inteligência Artificial. É um bocadinho difícil fugir à inteligência artificial, exatamente à boleia do tema. É um reflexo daquilo que está a acontecer”, refere Ricardo Lima.
Mas perante um tema tão específico, a pergunta com que abrimos este texto volta a surgir: não estará a Web Summit a tornar-se um evento de nicho?
“Não, não. Um evento de nicho pode ser um evento de fintech, pode ser um evento de medicina. Vais àquele evento e estás em contacto com pessoas que operam naquela indústria. O valor da Web Summit passa por agregar todas essas indústrias. Eu sou um ‘founder’ a trabalhar na área de finanças. Posso perfeitamente falar com outro ‘founder’ que, se calhar, está a trabalhar numa área que não tem nada a ver e partilhamos desafios, ideias”, remata.
















