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Os portugueses a caminho dos Jogos Olímpicos

Medalha na despedida dos 50 km marcha seria "a cereja no topo do bolo" para João Vieira

22 jul, 2021 - 06:30 • Inês Braga Sampaio

O grande objetivo do marchador português para Tóquio 2020 é "fazer o melhor possível" numa prova que, em 2012 e 2016, não conseguiu terminar. A quinta participação de João Vieira, de 45 anos, acarreta desafios inéditos, devido ao extenso naipe de restrições resultantes da pandemia da Covid-19. "Espero que toda a experiência que eu tenho venha ao de cima", deseja, em entrevista à Renascença.

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João Vieira sonha com a medalha na despedida da distância dos Jogos Olímpicos, no entanto, o grande objetivo para Tóquio 2020 é mesmo "fazer o melhor possível" na prova dos 50 quilómetros de marcha atlética.

O vice-campeão de 2019 não conseguiu completar a prova em 2012, em Londres, e 2016, no Rio de Janeiro. Contudo, João Vieira garante que não tem uma espinha atravessada na garganta, pois o sonho já foi concretizado há muito e logo por cinco vezes: a presença nos Jogos Olímpicos, que o atleta almejava desde o ouro de Carlos Lopes na maratona de 1984, em Los Angeles, nos EUA.

Aos 45 anos e já na quinta participação, João Vieira espera que a experiência possa ajudá-lo a superar os desafios, especialmente nuns Jogos Olímpicos em que toda a experiência — desde o convívio limitado à prova sem público — será diferente daquilo a que está habituado.

Foi a preparar-se para esses desafios, numa sala da Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial que simula a temperatura e humidade que encontrará em Sapporo, que a Renascença o encontrou.

Sem promessas quanto a Paris 2024, João Vieira não esconde que ser um dos derradeiros medalhados da história dos 50 km de marcha atlética nos Jogos Olímpicos seria "a cereja no topo do bolo".

O atleta português entra em prova a 5 de agosto, às 21h30.

Em 2012 e 2016, não terminou a prova dos 50 quilómetros. Por outro lado, foi vice-campeão do mundo em 2019. Pondo estas duas prestações lado a lado, qual é o objetivo para Tóquio 2020?

O objetivo é fazer o meu melhor possível, já que nunca terminei uma prova de 50 km nos Jogos Olímpicos e vai ser a última competição. Fazer o melhor que esteja ao meu alcance naquele dia. Porque isto, em competições internacionais e 50 km, não é só treinar bem e ter as condições todas para treinar. É preciso que, naquele dia, o atleta acorde bem disposto e que as coisas saiam todas e que tenha um pouco de sorte.

É a despedida dos 50 km marcha dos Jogos. O que é que isto significa para a modalidade?

Para nós, atletas, sem dúvida que é uma amargura bastante grande, porque os 50 km é uma prova muito mítica nos Jogos Olímpicos e a mais antiga [de marcha atlética, integra o programa olímpico desde 1932]. Para nós, é bastante desgostoso acabar com esta competição.

Neste momento, não sabemos qual é a prova que vai existir em Paris 2024, só em dezembro é que se vai decidir. Mas para nós e para todos os atletas da modalidade do atletismo, é muito triste.

Seria mais especial ainda ser um dos medalhados na derradeira prova dos 50 km nos Jogos Olímpicos?

Sim, para mim seria a cereja no topo do bolo se ganhasse uma medalha. Mas eu vou competir para fazer o meu melhor possível. Somos, neste momento, 60 atletas para três medalhas. Toda a gente trabalhou o mesmo para conquistá-las, por isso vou lá para fazer o meu melhor, dentro das minhas possibilidades, porque certamente vai haver atletas que são melhores que eu.

Sente que, por não ter terminado as duas anteriores provas, tem uma espécie de dívida a saldar com os Jogos Olímpicos ou uma espinha atravessada na garganta?

Não tenho, porque são os meus quintos Jogos. É a minha quinta participação. Eu sempre quis ser atleta olímpico, desde o Carlos Lopes da medalha de ouro, por isso não é uma amargura ter desistido naquelas duas competições. Antes dessas duas competições de 50 km, em que eu desisti, já tinha feito a prova dos 20 km. Mas é uma prova mítica de 50 km e certamente é para eu acabar esta competição.

Num contexto mais geral, há muitas condicionantes este ano. O que é que muda no espírito de equipa?

O trabalho de equipa vai ser um pouco diferente, porque vamos sentir certamente a falta de apoio dos nossos colegas e a falta de apoio do público. Vão ser uns Jogos bastante diferentes para todos os atletas e treinadores.

Tendo em conta as condicionantes que existem, quão impactante pode ser para si esta diferença?

O impacto tem a ver com o realizar de testes Covid-19 diariamente, estar condicionado a um quarto de hotel e só se poder sair para treinar. Depois, só posso ir ao local da prova no dia em que a fizer. Isto são tudo condicionantes, mas é igual para todos os atletas. Por norma, quem se adaptar melhor vai reagir melhor. E a prova vai ser às 5h30 da manhã [locais].

Espero que toda a experiência que eu tenho venha ao de cima, para me ajudar nestas condicionantes todas que vamos apanhar em Tóquio e em Sapporo.

E não haverá público, que é outra grande diferença. Nestas circunstâncias, especialmente em provas que duram várias horas, sente que é maior o sacrifício na hora?

Eu tenho a minha treinadora ao meu lado e vou ter muitos colegas de prova. Temos é de ter um bocado de sacrifício e de luta para estarmos lá dentro cerca de quatro horas.

Mas é tudo treinado durante vários meses e, no caso de uns Jogos Olímpicos, nós até treinamos durante vários anos para conseguirmos estar presentes, e conseguimos superar todas as dificuldades que encontramos na competição.

De volta à parte do convívio, da limitação de circulação, sente que, por não terem essa experiência anterior, os atletas estreantes poderão ter, de certa forma, uma vantagem relativamente aos mais experientes?

Eu penso que não, porque isto é uma circunstância que não é habitual de modo nenhum, sejamos mais ou menos experientes. É uma situação nova para toda a gente. Toda a gente teve de trabalhar a sua parte psicológica para estar em competição e, muitas vezes, nós não sabemos o que é que vamos encontrar à nossa frente.

Nós temos regras e as regras são para se cumprir e, mais ou menos experientes, não podemos sair dos quartos, porque se sairmos do quarto sem motivo algum podemos ser recambiados para o nosso país. Se treinarmos com um grupo e um atleta estiver infetado, sem culpa nenhuma ficamos impedidos de competir, por isso ser mais ou menos experiente não vai resolver nenhum dos casos.

Em que é que a experiência do João Vieira pode ser um trunfo relativamente aos restantes?

O trunfo é que o João Vieira é um atleta mais conservador, mais de defesa e que não se desgasta tanto ao início. Neste caso, numa competição dura como esta vai ser, pode ser bastante importante para a segunda parte.

Como é que aborda estratégica e taticamente esta corrida, especialmente com todas estas condicionantes?

Eu não trabalho sozinho, tenho uma treinadora, tenho um fisiologista de esforço, tenho um psicólogo. São tudo pormenores que são trabalhados diariamente e, quando chegamos à competição, determinaremos qual vai ser a posição tática que vou utilizar, dentro da condição física em que estiver naquele momento, para poder delinear uma estratégia de prova para conseguir concluí-la com sucesso.

E como é que um atleta se prepara psicologicamente nestas circunstâncias?

Neste momento, acho que ninguém se prepara psicologicamente para essas circunstâncias. Temos de ir e tentar fazer o nosso melhor.

Teremos João Vieira nos Jogos Olímpicos de 2024 em Paris?

Neste momento, não sei. Tenho o objetivo de fazer estes Jogos Olímpicos. Tenho o objetivo de fazer o Mundial do próximo ano nos EUA. Só depois disso é que vou pensar se vou fazer mais dois anos para estar presente nos Jogos Olímpicos de Paris, porque estou condicionado com a prova que possa haver na marcha atlética.

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