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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

A magia do luto

30 jul, 2021 • Opinião de Henrique Raposo


Quando toda a gente já sabe no NY Times, Jean Didion quer evitar que a notícia chegue ao LA Times; é como se fosse possível mantê-lo vivo na diferença horária entre os fusos horários da costa leste e da costa oeste. Isto não é loucura ou infantilidade, é poesia.

“O Ano do Pensamento Mágico”, de Joan Didion, é um livro notável sobre o luto, isto é, sobre a resistência do espírito humano ao absurdo da morte. Não é um romance, é um pedaço de memória: Joan Didion, uma das grandes jornalistas americanas do último meio século, conta aqui a maneira como lidou com a morte do marido, também jornalista e argumentista, John Dunne.

"A viuvez é um buraco no centro da cabeça”, diz Daniel Faria algures. O tal pensamento mágico de Didion é uma resposta a este buraco, é uma cisterna poética de derrama água sobre o vazio, sobre o nada. Mas o que é, afinal, este pensamento mágico? À primeira vista, parece ridículo e ilógico, ou infantil. Mas não é ilógico colocar um ramo de flores na campa de um pai, filho ou marido? Qual é a eficácia de um buquê de flores na mármore fria do túmulo? Não há eficácia, porque não se trata de eficácia ou lógica, mas de amor e resistência do espírito. Como dizia Chesterton, os manicómios estão cheios de pessoas absolutamente lógicas que não compreendem o porquê de uma flor oferecida a um morto.

Mas em que consiste o pensamento mágico de Didion? Por exemplo, recusa ler os obituários de John. Ela consegue lidar com a palavra “autópsia”, mas não consegue lidar com a ideia do “obituário”, o que mostra como a caneta pode ser mais forte do que o bisturí. Didion não quer ler a confirmação final; se não ler, pode fingir ou imaginar que ele ainda está vivo, ainda vai aparecer ali em casa. Quando toda a gente já sabe no NY Times, Jean Didion quer evitar que a notícia chegue ao LA Times; é como se fosse possível mantê-lo vivo na diferença horária entre os fusos horários da costa leste e da costa oeste. Isto não é loucura ou infantilidade, é poesia, é a resistência humana ao absurdo da finitude.

O mundo sabe, o LA Times sabe, o NY Times sabe, mas ela quer estar sozinha, não recebe ninguém, pois assim pode manter a ilusão de que é possível reverter o processo: “Precisava de estar sozinha para que ele regressasse. Este foi o princípio do ano do meu pensamento mágico”.

Comentários
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  • João
    10 ago, 2021 Viseu 11:55
    Artio interessante!
  • Tiana
    31 jul, 2021 Lisboa 15:12
    Mas para quem fala o Senhor Raposo? Penso que fala e escreve para um auditório sem ninguém... Escreve um texto, com palavras de outros, mistura alhos com bugalhos e faz uma "sopa" de vaidade e bate palmas a si mesmo... Um Texto com tanta "inglesada" pelo meio, que nos deixa enviuvados de mensagem... O Senhor Henrique Raposo vive em permanente Viuvez... O Sr. Raposo tem um buraco no centro da cabeça cheio de nada, onde não brota nada, nem uma flor podemos atirar para a sua cabeça gelada de pensamento e de sabedoria genuína. Uma flor lançada na pedra gelada do seu cérebro seca imediatamente. Aconselho o Sr. Raposo tirar um tempo para trabalhar na Construção civil como trolha; ou então ceifar trigo no Alentejo. Precisa de umas ferramentas pesadas, de pôr a cabeça ao relento das intempéries e de sujar as mãos para limpar a mente e o coração. Pode ser que depois deste emprego se torne mais adulto e a maturidade o ajude a olhar a Vida com outra beleza e simplicidade. Tudo é simples e o você complica....
  • Ivo Pestana
    30 jul, 2021 Madeira 16:17
    Não leio livros de estrangeiros por opção, mas um amigo após a morte da sua mãe estava sereno. Ao ser questionado pela sua calma, disse apenas, que acreditava na ressurreição. Por concordar com o meu amigo, não preciso desses livros.