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Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​A política na era da pós-verdade

10 fev, 2021 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Na política a pós-verdade desvaloriza o debate racional e sobrevaloriza a propaganda, amplificada pelas redes sociais. Como pode funcionar a democracia com a pós-verdade? A resposta terá que vir dos EUA. Grande parte dos que votaram em Trump acredita que ele foi vítima de uma gigantesca fraude eleitoral, fantasia que o ex-presidente continua a alimentar.

O processo de destituição (“impeachment”) de Trump começou ontem no Senado federal. Não é provável que o ex-presidente seja exonerado. Primeiro, porque os constitucionalistas americanos estão divididos quanto a saber se pode haver processos destes depois de o acusado ter deixado o cargo. Depois, e mais importante, porque a destituição exige dois terços dos cem votos daquela câmara, o que significa que nesse sentido teriam que votar pelo menos 17 senadores republicanos, além de todos os 50 democratas. Ora tudo indica que apenas 5 senadores republicanos votarão pela destituição. Antes de o julgamento começar, só esses cinco senadores republicanos não votaram a favor de questionar a constitucionalidade do processo, que é o principal argumento dos que se opõem à destituição.

Sendo assim, Trump não ficará inibido de se candidatar em 2024. Uma recente sondagem conclui que mais de metade dos americanos gostaria que Trump perdesse este processo de destituição. Mas a opinião dos republicanos é bem diferente. É importante, embora tenha diminuído um pouco depois do assalto ao Capitólio, a influência que o ex-presidente ainda tem no partido republicano, apesar de tudo o que se viu. De resto, os quatro anos de mandato de Trump mostraram bem as características do personagem – e, no entanto, ele, apesar de derrotado, obteve mais votos em novembro passado (74 milhões) do que em 2016 (63 milhões), quando foi eleito.

Os republicanos que se voltaram contra Trump já estão a sofrer represálias, devendo enfrentar opositores internos nas próximas primárias e perder financiamentos. É essa a grande arma política do ex-presidente, que desde que foi derrotado angariou apreciáveis quantias de dinheiro para chantagear candidatos republicanos. E serão muitos, pois em 2022 haverá eleições federais para um terço do Senado e para a totalidade dos deputados da Câmara dos Representantes, cujos mandatos duram apenas dois anos. E haverá inúmeras eleições estaduais, nas quais Trump também costuma meter-se, apoiando os que lhe são fiéis e atacando violentamente os que o criticaram.

Foram escassos os políticos republicanos de reconhecido nível que se demarcaram de Trump. Mitt Romney, que em 2012 perdeu a eleição presidencial para Barack Obama, opôs-se a Trump desde o princípio. Mas é uma exceção.

Por outro lado, veja-se o caso de Mitch McConnell, líder da maioria republicana no Senado, maioria que em novembro perdeu. Durante quatro anos McConnell fez tudo o que Trump quis. Mas o assalto ao Capitólio, encorajado por Trump, levou-o a mudar de posição: pronunciou um duro discurso contra a fantasia alimentada pelo ex-presidente, segundo a qual o verdadeiro vencedor era ele, Trump, vítima de uma “gigantesca fraude” eleitoral. Há dias McConnell criticou acerbamente uma senadora republicana pró-Trump, Marjorie Taylor Greene, que exibe uma elaborada e fantasmagórica teoria da conspiração para repetir que o ex-presidente foi o real vencedor da eleição presidencial. Mitch McConnell afirmou alto e bom som que não admitia teorias da conspiração, que considera serem “um cancro” de que urge livrar o partido republicano. Mas depois juntou-se ao grupo de senadores republicanos que defendem ser inconstitucional a destituição de um ex-presidente. Hábil estratega, McConnell tenta impedir que o seu partido se parta.

O problema é que a maioria dos que votaram em Trump continua convencida de que ele ganhou a eleição. Parece lunático defender tal coisa, depois de quase uma centena de processos judiciais e outros aos resultados eleitorais não terem encontrado uma única fraude. Vivemos numa era da pós-verdade, em que muita gente acredita naquilo que gosta, por muito estranho que pareça. A pós-verdade manifesta-se em áreas que vão da negação das alterações climáticas à recusa de tomar vacinas, e não apenas contra o coronavírus. Na política a pós-verdade desvaloriza o debate racional e sobrevaloriza a propaganda, amplificada pelas redes sociais.

Como pode funcionar a democracia com a pós-verdade? A resposta terá que vir dos EUA.

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